Meu nome é Wladimir Reis, tenho 48 anos, vivo com a HIV há 17 anos. Reservo este espaço para falar, e fico muito à vontade quanto tenho algo a dizer. Nós que vivemos com o HIV sabemos da dificuldade diante do trabalho de luta. A partir da sorologia positiva ao HIV em 1992, a militância no campo, que ajudou a muitos homens, mulheres, jovens com (vivendo) com o HIV, impulsionou o compromisso de muita gente, independente do contexto das desigualdades sociais, que aprofunda descriminações e preconceitos, afetando as pessoas na plenitude da criatividade da vida e do trabalho, dificultando a sua organização.

Entendo que uma ong voltada à assistência de pessoas soropositivas e de prevenção deve proporcionar também a possibilidade de trabalho, que dignifica a vida e proporciona cidadania. Viver com AIDS para nós é antes de tudo, um aprendizado constante. Através deste agravo de saúde podemos perceber limites, como também romper com os limites. Aprendemos com ela que somos todos iguais, ainda que não sejamos os mesmos. Aprendemos com a AIDS que a morte é fato, não para nós, mas para qualquer mortal. Talvez a diferença, se é que existe, esteja para quem viver com AIDS em seu organismo, em receber um aviso prévio do inevitável.

A AIDS não muda caráter de ninguém, mais tem tido o poder de transformar cidadãos comuns em verdadeiros guerreiros; não só aqueles que vivem com HIV em suas realidades, mais aqueles que convivem de uma forma ou de outra. Percebemos a necessidade de entender melhor o mecanismo humano, sejam eles culturais, sociais, individuais, históricos ou políticos. Compreendemos e continuamos a aprender que a construção coletiva nos permite um conhecimento mais amplo.

Hoje entendemos que tomar decisões ou fazer julgamentos partindo de um fragmento, de uma situação, não é prudente. Há que se perceber o todo, há que se ampliar os conhecimentos, para que se possa ter mais leveza e segurança nas tomadas de decisões, sejam elas pessoais ou coletivas. Viver com AIDS no Brasil, não é a mesma coisa que viver com AIDS na Bolívia, ou na Nicarágua. E viver com AIDS em São Paulo não é a mesma coisa de viver em Teresina, em Macaé ou até mesmo em Recife. Mas esteja onde estiver, viver com AIDS é viver com uma doença incurável às vezes com tratamento disponível, e às vezes não. Viver com AIDS é acordar para as causas edificantes e coletivas, é acordar para a cidadania e democracia. É de fato, um divisor de água para nós.

É uma patologia que demanda toda uma reflexão especial. Viver com AIDS é tomar consciência das necessidades mais básicas e fundamentais de um individuo como comer, morar, vestir, trabalhar e poder existir e realiza-se. E então nós perguntarmos, se a AIDS pôde trazer uma consciência para tantas pessoas sobre o direito à vida. Por que não trouxe ações concretas e continuadas sobre o direito a uma Saúde? Falo de uma Saúde Pública, com recursos públicos e eficazes para todos e todas. Como ter saúde com o descaso dos governantes da saúde pública? Com um número insuficiente de trabalhadores da saúde (mal remunerados), uma pequena disponibilidade de leitos e uma constante falta de medicamentos? O Interesse das poderosas indústrias farmacêuticas e das grandes empresas privadas de saúde tem levado ao sucateamento do setor público.

Enquanto alguns poucos têm acesso aos grandes hospitais de “luxo”, a maioria da população tem que ficar nas filas. Como ter saúde sem trabalho, sem moradia? Como ter saúde sem dignidade? E ai, vemos que a transformação é ainda lenta. Aqui no Brasil avançamos muito no acesso universal a tratamentos, medicamentos e políticas para a AIDS. No entanto, as filas de espera para exames, consultas, tratamentos e cirurgias não diminuíram. Reflexões à parte, aprendemos que uma ação se dá após um movimento de fato. Para sairmos do lugar onde estamos, precisamos de um passo à frente. Vamos prestar atenção aos discursos e atitudes. São coerentes? Caminham juntos? Então, vamos lutar contra a ignorância, contra o preconceito e a discriminação, contra o descaso e contra a mesmice da violência e da corrupção. Peço a todos e todas que unidos em uma só voz, possamos dizer, Viva a Vida. *

Wladimir Reis é fundador e membro da Rede de Pessoas Vivendo com HIV – Núcleo PE e da Organização Não Governamental – GTP+ Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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