Por: Victoria Ayres*

Em debate com correligionários, amigos e militantes pelo direito à comunicação realizado na última segunda-feira (23/03), o vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira (PCdoB) afirmou que, dessa vez, a Rádio Frei Caneca sairia do papel. “É um compromisso da nossa campanha eleitoral e estará no ar até o final do nosso mandato”, afirmou o gestor, ciente de que a emissora pública aprovada há cerca de 60 anos pela Câmara dos Vereadores é uma demanda histórica dos movimentos sociais pernambucanos.

Em 2014, o coordenador de música da prefeitura Patrick Torquato (também presente ao encontro) chegou a conduzir 17 reuniões com entidades da sociedade civil para que fossem realizadas propostas para a implementação do veículo de comunicação. Até agora, porém, a prefeitura não tem informações sobre quando terá início o processo licitatório dos equipamentos de transmissão e infraestrutura da rádio, avaliados em cerca de R$ 300 mil.

A conversa, realizada no Bar Retalhos, centro da cidade, faz parte de uma série de discussões informais que Siqueira vem conduzindo, como mediador, desde as eleições do ano passado. De quinze em quinze dias, convoca as pessoas interessada para debater assuntos das mais diversas naturezas. “Muitas vezes, o tema é livre”, afirma o político que, nesses encontros, costuma ‘despir-se’ da condição de gestor para assumir o ‘chapéu’ de militante social.

A reunião de ontem, bastante acalorada, teve como foco principal a regulação da radiodifusão, monopólios midiáticos e principalmente quais as pautas locais de Pernambuco em relação a essa temática. O encontro reuniu cerca de 30 pessoas.

Com críticas mais gerais e pouco aprofundadas em relação ao papel do executivo municipal, as falas das pessoas participantes se dirigiram prioritariamente ao monopólio midiático que existe no país como um todo. Leonardo Manga, funcionário da Prefeitura de Olinda, ressaltou a relação intricada entre a mídia privada e os três poderes, “a mídia é apenas uma ponta que faz parte um sistema muito mais arraigado na sociedade, que mantém a isonomia de informação. Dentro dessa estrutura organizacional, os homens que fazem parte do governo estão responsáveis por manter esse status quo e a mídia é o elemento marketing dessa estrutura de direita”, diz ele.

Várias pautas locais também entraram no papo. Ivan Moraes Filho, do Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), pontuou que pouco foi feito ainda não só em relação à Rádio Frei Caneca, mas também à TV Pernambuco (cuja concessão pertence ao governo do Estado) e à quantia exorbitante gasta pelo governo com publicidade oficial em meios de comunicação privados, “o CCLF tem constatado que cerca de 100 milhões de reais são destinados para publicidade oficial anualmente, enquanto que a TV Pernambuco precisa sobreviver com menos de R$ 2 milhões por ano. Quanto à Rádio Frei Caneca, há muito que a gestão promete que ela irá ao ar, mas não parece haver dinheiro nem para pagar profissionais de comunicação”, ressalta Ivan.

Embora muitas falas tenham sido pouco propositivas, foi também debatido como os governos de esquerda, seja no nível federal ou estadual, estão se movimentando pouco para combater o oligopólio da mídia e a regulamentação das comunicações. “A luta pela comunicação hoje em dia faz parte também de uma luta de classes, porque são as elites que são donas dos meios”, disse Guido Bianchi, presidente da Empresa Pernambuco de Comunicação, criada para gerir, entre outras coisas, a emissora de televisão pública do Estado.

Com opiniões bastante apaixonadas que envolveram não só os veículos de mídia, mas a própria crítica de possíveis erros de partidos historicamente identificados com movimentos de esquerda, e agora no poder, o debate acabou alongando-se por mais de uma hora além do tempo previsto. Para o anfitrião, o encontro foi um sucesso. “É um tema que desperta muito, e cada vez mais, o interesse das pessoas. Percebe-se que há muito ainda que ser debatido e realizado”, disse Siqueira que – devido à demanda pelo debate, fará uma nova sessão de conversas sobre o mesmo tema, no mesmo Bar Retalhos, no próximo dia 6 de abril, com início previsto para as 18h30. Qualquer pessoa pode participar e não é necessário fazer inscrição prévia.

*Estudante de jornalismo na UFPE, estagiária do CCLF

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