Por Prof. Dr. Daniel Rodrigues
Departamento de Fundamentos Sócio-Filosóficos da Educação

O dia 21 de abril, a imprensa brasileira deveria recuperar na nossa memória histórica um dos mártires na luta pela independência do nosso país: Tiradentes. Ele foi enforcado por contrariar interesses da Coroa Portuguesa que expropriava as riquezas da colônia, para as classes dominantes portuguesas e seus aliados. Enforcar Tiradentes em 1792, trinta anos antes do Sete de Setembro, 1822, foi importante porque na colônia já se começavam os ares de liberdade no Brasil, influenciados pela independência dos EUA e da revolução francesa. A ordem fora ferida por ele. E, qualquer coisa contra a ordem deve ser tratada como CRIME. Tiradentes foi considerado um criminoso perigoso. O seu crime? Lutar pela independência do Brasil com ideais revolucionários.

A história mostra, entretanto, que Tiradentes não foi o único. Muitos outros foram condenados por atacar com maior ou menor violência à ordem. Ordem esta, que até hoje deixa a maioria alijada das riquezas do nosso país. Lembremos ainda o nosso Frei Caneca, preso como criminoso pela sua participação na revolução de 1817. Foi solto em 1821 e quatro anos depois foi julgado e condenado à morte pelo crime de sedição e rebelião contra as ordens imperiais de sua Majestade o Rei de Portugal. Essa história parece esquecida hoje.

A necessidade de lutar nasce de várias causas. Uma delas, foi da luta para a conquista da independência, ou para defender direitos, ou ainda para que interesses legítimos sejam atendidos. Todas essas formas de luta, na história, bem como a criminalização das mesmas por parte dos poderosos, não é nenhuma novidade. São muitos os exemplos de lutadores e lutas criminalizadas. E a forma que as elites os tratam também é exemplar. Pernambuco é pródigo nesses exemplos. Lembremos aqui de Zumbi. A história relata que em 1696, o então governador da província local, Caetano de Melo e Castro, escreveu ao Rei de Portugal o9 seguinte: “Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares.”(wilkipédia).

Hoje a imprensa empresária também quer apresentar cabeças. Que cabeça querem colocar hoje em praça pública para que atemorizem todos os humilhados, explorados e oprimidos?

A cabeça culpada de toda a caótica (des) ordem do trânsito do Recife, onde ninguém se dignam em falar do péssimo transporte público que há, pois a prioridade são para os carros individuais.

A cabeça daqueles que recebem a menor parte dos recursos públicos, já que a parte gorda desses recursos são para aqueles quem têm grandes extensões de terras ou enormes patrimônios privados.

A cabeça dos trabalhadores da agricultura familiar, porque o agronegócio, desde o tempo da escravidão, deu muitos recursos para a
terra brasilis. Pois o agronegócio tem um retorno enorme, pelo menos para a compra de helicópteros para os donos dessas grandes empresas.

A cabeça dos pobres, que devem ficar satisfeitos com esmolas, com políticas que compensem o que está sendo retirado dos seus direitos,
vivendo em filas de hospitais públicos, em pleno pólo médico.

A cabeça de jovens e crianças que têm uma escola em pleno apartheid, pois as escolas mantidas pelo Estado ou pelo município estão no quadro caótico. Aproveitemos para colocar a cabeça dos professores, os governantes e os donos das grandes empresas escolares, vendem um direito só para quem tem posses. Errado está quem tem que ser trabalhador para sutentar essa riqueza.

Por fim, a cabeça do MST, pois ele chama a solidariedade entre as classes trabalhadoras do campo e da cidade, não para assistir ao
arrocho salarial, a miséria das favelas, os sem dentes do campo, a uma paz de cemitério, mas convoca através de seu exemplo para a luta.

Ilegítima? Quem a legitima é a miséria, a necessidade de romper com essa hipocrisia burguesa. Quem criminalizou Zumbi, Frei Caneca,Tiradentes, Gregório Bezerra, o Quilombo dos Palmares, o Rei Canidé, as mulheres de Tejucupapo? Quem quer criminalizar o MST e todos lutadores e lutadoras por um Brasil liberado do jugo da exploração? Crime é a fome, a exploração, a ostentação de riqueza, a arrogância das classes dominantes os que massacraram em Eldorado de Karajás e todos que acobertam essa violência originária. Sim, legitimamos as lutas nos somando a dizer: lutar não é crime! E, “verás que um filho teu não foge à luta!”

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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