Por Ivan Moraes Filho

A frase-título desse texto é do diretor da TV Viva  Eduardo Homem depois de assistir a uma apresentação do tamporoso das tecnologias Silvio Meira (@srlm) no encontro de ontem promovido pela TV Pernambuco para se discutir novas tecnologias no contexto das emissoras públicas.

Meira, que é um bambambam nesse papo (e o rei do powerpoint) deixou todo mundo embasbacado não só pela sua rapidez de raciocínio, pelos seus slides bacanas e pela sua canetinha mágica, mas também pelas suas reflexões e previsões.

Pra o cara, discutir uso do espectro, transmissão analógica ou mesmo digital (nos moldes do ISDB adotado no Brasil) já é perda de tempo. De olho no futuro (”quem planeja para o presente, fica no passado”), o cientista aposta que em, no máximo, cinco anos, todo o país vai estar coberto por redes 3G. “À medida em que os 2G forem quebrando, a gente não vai mais encontrá-lo no mercado”.

Interatividade, portabilidade e amigabilidade são palavras de ordem no discurso do professor (que a gente ouviu de graça quando tem muita gente pagando caro pra ter a oportunidade). Não lhe falta embasamento. O número de pessoas com algum nível de acesso à internet sobe vertiginosamente a cada ano. O número de pessoas que acessam através do celular idem. O avanço das novas tecnologias parece mostrar que, de forma irreversível, a maneira com que se assiste televisão (melhor dizer audiovisual) será completamente diferente em menos de dez anos.

As empresas de radiodifusão já sentem o baque. Organizadas, fazem o que podem para medir prejuízos e repensar seus modelos de negócios. Paralelamente, procuram (até agora em vão) impedir que conglomerados internéticos de fora do país participem da produção de conteúdo por essas bandas. O que não deixa de ser curioso, pois algumas dessas mesmas corporações brasileiras só sobrevivem até hoje por conta de aportes financeiros gringos que tiveram em suas origens e, mais recentemente, com a mudança da lei que vetava estrangeiros do jornalismo brasileiro (hoje permitidos em até 30% das ações de cada empresa).

Pra quem precisa planejar uma emissora pública com equipamentos capengas como é o caso da TV Pernambuco, o debate de ontem trás uma imensa confusão e um mar de oportunidades. As perguntas (que não calam, para não perder a frase feita), não são poucas:

Até que ponto vale investir um punhado de milhões de dólares para comprar e recuperar, em todo o estado, equipamentos de transmissão analógicos  que terão vida útil de um par de dezenas de anos – sabendo que milhares de pessoas teriam, dessa forma, acesso a conteúdos de possível qualidade produzidos por uma tevê realmente pública?

Até que ponto vale investir em equipamento de TV Digital, no sistema atual implementado no Brasil, que não preza pela interatividade, que não chegou em todo canto, que custa um bocado mais e que terá vida apenas um pouco maior que os analógicos?

Até que ponto se pode investir em novas tecnologias de transmissão de conteúdo (utilizando-se banda larga, por exemplo), acreditando que num prazo de 10 anos essa forma de interagir com conteúdos audiovisuais pode ser predominante (e sabendo que, desse modo, milhões de pessoas hoje excluídas digitalmente – especialmente no interior – demorariam bem mais para poder participar do processo?

Se eu tiver a resposta aqui no bolso eu cégue. Não pense que eu também não perguntei a Silvio Meira, mas acho que ele se esquivou.

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