Foi anunciada ontem a construção de um Shopping Center na área atualmente ocupada pelo Hospital Ulysses Pernambucano, mais conhecido como Hospital da Tamarineira. Não é de hoje que a famosa unidade psiquiátrica é alvo da tentação do mercado imobiliário nem é de hoje que esse tema divide opiniões.

Convidados para a entrevista coletiva que anunciou ‘oficialmente’ o empreendimento, os três jornais pernambucanos de maior circulação deram mais uma prova que, mais importante que ler as notícias, é fundamental saber quais são os possíveis interesses por trás do que se fala.

Propriedade do Grupo JCPM, que tem boa parte de seus investimentos no quase monopólio dos shopping centers da Região Metropolitana do Recife, o Jornal do Commercio caiu de pau em cima da possível concorrência. Na matéria principal, intitulada “Projeto da Tamarineira causa forte reação”, o JC foca principalmente na reação dos opositores à iniciativa, principalmente em personagens da oposição à gestão pública municipal e estadual. Com menos ênfase, a Folha de Pernambuco também toca na ferida com a matéria “Parque: projeto é questionado”.

Não houve espaço para quem está a favor da obra.

Mais sintonizado ao conjunto dos empresários do mercado imobiliário, o Diario de Pernambuco opta por soltar fogos para o novo empreendimento. Em três retrancas (a principal chama-se “Tamarineira valorizada com shopping”), o DP entoa loas à iniciativa e prestigia um de seus anunciantes com uma das matérias vinculadas (“Ferreira Costa abrirá unidade”).

Não houve espaço para quem se posiciona contra a obra.

Em todos os três jornais, falta uma análise mais contextualizada do que pode significar esta obra. De que interesses econômicos e sociais podem estar em jogo. Do histórico do hospital e dos poucos pacientes que ainda restam por lá. De outras opções que já foram cogitadas para a área (como a de um parque público, por exemplo).

Normalmente jornalistas reclamam da falta de espaço para estas reflexões. Desta vez, não parece ter sido o caso.

É legítimo que proprietários de jornais privados tenham opiniões sobre os assuntos que noticiam. Expressar claramente essas opiniões é mais que um direito do empresáriado da comunicação. Faz parte da transparência que um veículo deve ter ao deixar claro para leitores e leitoras de que lado está especialmente em temas polêmicos.

Vale lembrar, porém, que o lugar mais adequado para estas opiniões é no Editorial.

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