Por Ivan Moraes Filho

Dez blogueiros de diversas partes do Brasil foram convidados  pelo Palácio do Planalto para entrevistarem o presidente Lula na manhã desta quarta-feira.

O acontecimento, histórico. Um presidente que, embora fale bastante, não é dado às formais coletivas estava – pela primeira vez na história desse país – propondo-se a ser sabatinado pela turma da internet. Sem nenhuma dúvida, um acontecimento pioneiro que será lembrado sempre que se falar de comunicação no país.

A escolha dos entrevistadores certamente não agradou a todos. Todos os dez blogs convidados participaram ativamente (uns mais, outros menos) da campanha presidencial. Sem exceção, todos apoiaram abertamente a candidata petista Dilma Roussef, indicada pelo presidente e vencedora do pleito.

Na opinião deste humilde bodegueiro, faltou ao menos uma cota básica de conservadores ou mesmo dos supostos isentos. Teria gostado de ver um Reinaldo Azevedo no meio daquela turma. Ou mesmo um Olavo de Carvalho. Pelo menos um Ricardo Noblat que – se não é um reacionário, certamente não é (mais) um lulista de carteirinha. Marcelo Tas eu não chamaria – já é hora de baixar a bolinha do careca.

Mesmo dialogando com a ‘brodagem’, eu até imaginava (queria) que o presidente fosse afrontado com questões mais espinhosas. Mesmo temas cabulosos como a regulamentação da mídia, o código florestal e a reforma política foram pouco trabalhados. Algumas perguntas até funcionariam se coubesse ao questionador a possibilidade de dizer: “presidente, o senhor não respondeu”. Nisso, o formato também não ajudou. Cada um perguntava apenas uma coisa e depois tinha que ficar só feito lagartixa, fazendo que ‘sim’ com a cabeça.

Na hora de falar de comunicação (pauta comum no dia-a-dia de quase todos os blogs convidados), Lula foi Lula. Fez diversas críticas pontuais às empresas de comunicação e jogou para a plateia. Nem disse – nem foi perguntado – porque sua intervenção sobre as políticas públicas de comunicação foram tão acanhadas. Não disse – nem foi perguntado – porque seu ministro da comunicação continuou indicado pela Abert. Não disse – nem foi perguntado – porque as rádios comunitárias continuam sendo perseguidas no país.

Aqui e ali, quando parecia ter sido levado a revelar alguma novidade, saía com uma tirada interessante: “não posso falar sobre isso enquanto presidente”.

Pela brevidade do anúncio, pelo horário do acontecimento e – porque não – pela deficiência do acesso à internet com banda larga no país, a audiência também foi modesta. Nem 10 mil pessoas parecem ter acompanhado a coletiva ao vivo pela twitcam disponibilizada pelo Blog do Planalto.

Numa entrevista em final de mandato, Lula poderia ter sido convidado a avaliar seu governo, a perceber falhas, a refletir sobre o que poderia ter sido feito de forma mais eficiente. Mas preferiu várias vezes ignorar as perguntas e contar causos de suas andanças pelo mundo e alguns bastidores amenos do governo.

Em vários momentos, parecia que o presidente iria estalar os dedos e automaticamente surgiriam pratos de galinha cabidela com cuscuz para que o encontro dos (meus) amigos continuasse e atrapalhasse a agenda oficial.

Importante ressaltar, porém, que não há nada de irregular ou imoral na convocação da entrevista ou na escolha dos convidados. Receber os blogueiros amigos para uma entrevista é tão (ou mais) legítimo quanto as diversas entrevistas exclusivas que o presidente concedeu a diversas empresas privadas de comunicação ao longo dos oito anos de governo.

Tomou-lhe apenas um par de horas, aconteceu em Brasília e serviu para que seus simpatizantes no mundo inteiro pudessem ver um Lula descontraído, preocupado apenas em terminar seu mandato e passar a peteca para sua sucessora.

Pelo que representou em termos simbólicos, consolidando as mídias sociais e os blogs como participantes efetivos do discurso político nacional, o chamado #lulablogs foi o que a presidência esperava dele. Poderia ser melhor? Poderia ser muito melhor.

Agradecimento: o print que ilustra este artigo foi gentilmente repassado por Marcelo Loureiro, de Fernando de Noronha

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