Na edição deste domingo (10) do programa Domingo Espetacular, da TV Record, levou ao ar a reportagem “A polêmica dos sem terrinha”. Na matéria, a emissora aborda o 1º Encontro Nacional Sem Terrinha, que o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra realizou em 2018, em Brasília. O evento tinha como objetivo discutir temas relacionados aos direitos das crianças, ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a produção de alimentos saudáveis, a luta por escolas do campo e a Reforma Agrária Popular.

Durante três dias, 1.200 crianças participaram de atividades no Parque da Cidade Sarah Kubitschek sob o lema “Sem Terrinha em Movimento: Brincar, Sorrir, Lutar por Reforma Agrária Popular!”, com ações culturais, educativas, brincadeiras, oficinas de arte, entre outras. No encontro estiveram presentes 400 educadores adultos para auxiliar as crianças, que foram protagonistas da condução das atividades.

A emissora, coordenada pelo Bispo Edir Macedo, fez questão de engendrar as informações sobre o evento. Alegando que o MST é responsável pela manipulação e doutrinação ideológica de crianças, a reportagem inicia com a apresentadora questionando “Até que ponto, meninas e meninos, podem ser envolvidos em movimentos políticos e ideológicos?”. Ao longo do vídeo, imagens das crianças no Encontro são exibidas e manipuladas, com termos como “gritos de guerra” para se referir às músicas cantadas pelos Sem Terrinhas.

Com  depoimentos de juristas, a matéria acusa o MST de violência psicológica, bem como utiliza um dos artigos do ECA como forma de comprovação. Em seguida, são exibidos entrevistas com uma família que integrava o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e as filhas participaram dos Sem Terrinha. As crianças cantam músicas que aprenderam no grupo e posteriormente a repórter pergunta: “Eles falavam quem era o Che [Guevara]?”. O pai da família diz está desiludido com o Movimento e alegou que o MST “brincou com seus sentimentos”. O motivo da família deixar de acompanhar o Movimento foi a escola das crianças, “pois elas perderiam suas vagas na instituição pública local”.

“Ao contrário de Lucivaldo e Rose, muitos pais parecem não se dar conta sobre o que está em jogo”. Com essa frase a repórter introduz o Encontro Nacional dos Sem Terrinha. O valor do aluguel do local do evento também foi posto em questão pela reportagem e é alegado que tudo foi financiado com o dinheiro público, por uma emenda parlamentar para Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude. Como o MST não tem CNPJ, a verba foi repassada para ONG Aldeias Infantis SOS. Segundo o Movimento, “O Encontro, realizado em parceria com a organização Aldeias Infantis SOS, uma das mais respeitadas entidades que trabalha com a infância no país, teve as autorizações dos órgãos responsáveis e respeitou todos os padrões de segurança exigidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).”

Um dos especialistas afirma que “para as crianças deve ser uma brincadeira […] aproxima-se isso de ficar repetindo alguma coisa de regimes ditatoriais, onde a criança ou adolescente não pensa, ele só repete aquilo que é dito.” Em tons repugnantes, a repórter afirma que as crianças não ficaram apenas no local do evento, pois participaram de um protesto em frente a Ministério da Educação em prol de seus direitos; e recorda que os Sem Terrinha já haviam ocupado o lugar em 2014. O jurista alega que as crianças estavam sendo constrangidas, infringindo o artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Os especialistas apontam falhas na organização e a reportagem traz imagens das acomodações. Ao entrar em contato com a Vara da Infância e da Juventude, mostra-se um documento assinado pelo juiz que autorizou a realização do encontro, alegando que “adolescentes entre 12 e 18 anos foram autorizados […] e a participação de crianças menores de 8 anos não foi objeto de análise.” Enquanto isso, o MST frisa que “todas as crianças tiveram autorização dos pais, conforme prevê a legislação, e além disso, todos os alvarás necessários foram emitidos pelos órgãos competentes, incluindo a Vara da Infância e Juventude.”

No final da cobertura, a seguinte frase é dita: “Em um ponto, todos os especialistas ouvidos pelo Domingo Espetacular concordam: a questão não é a Reforma Agrária, lutar ou não pelo direito à terra; mas sim a manipulação de crianças com ‘doutrinações ideológicas’ que elas ainda não têm capacidade de entender.” Juristas ainda completam: “Não é ilegítimo você reivindicar uma condição adequada do uso da terra. Onde o pessoal se perde? Quando estimula a violência.”

Em nota divulgada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, “o Artigo 6º da Constituição Federal do Brasil prevê, dentre outras coisas, o direito à educação. Nesse sentido, o MST não só luta para que esse direito seja respeitado, como também trabalha cotidianamente para que nos tornemos um país mais digno e, sobretudo, menos desigual. Temos uma longa trajetória de lutas pelo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis para as crianças, jovens e adultos.”

Ao longo de toda a reportagem nenhum membro ativo do MST foi ouvido ou até mesmo um dos 400 educadores presentes no Encontro. Dessa forma, fica perceptível que o objetivo da veiculação da “investigação” foi manipular a opinião pública e contribuir com o processo de criminalização de organizações populares, que lutam pela defesa de seus direitos; discurso fortalecido, inclusive, pelo presidente Jair Bolsonaro em suas falas.

Mais uma vez, o jornalismo da Record se mostra completamente alheio a ética jornalística e não se preocupa em deixar sabido a todos de que lado está, descomprometido com a verdade e com os interesses particulares acima do Direito Humano à Comunicação, bem como fez durante a campanha eleitoral. A grande onda conservadora que assola o Brasil reflete em reportagens como essas, uma vez que a luta dos movimentos sociais é tratada como “terrorista” e deixa evidente a luta de classes que sempre esteve presente em nossa sociedade.

Por fim, vale salientar que toda criança é sujeito de direito, ou seja, elas podem e devem opinar sobre sua realidade e participar das decisões coletivas, principalmente no que diz respeito aos seus direitos e suas realidades.

Edição: Rosa Sampaio

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