A capa do dia é um recorte de realidade que, por vezes, explicita o direcionamento da linha editorial de um jornal. Além disso, é nessa primeira página que os editores hierarquizam as informações diárias, apontando aquelas que consideram pertinentes ao público. É inegável a visibilidade de uma capa, notada até por quem não compra jornal.

Foi nesse sentido e com tal visibilidade que o Diario de Pernambuco de sexta-feira, 12 de novembro, publicou como destaque de capa, formatada em caixa-alta e negrito – como deve ser – a manchete Racismo na escola. Abaixo dela, um pequeno texto de chamada descrevia as informações prioritárias da reportagem sobre o preconceito racial sofrido por uma criança de 9 anos, na escola em que estuda, no bairro de San Martin, no Recife.

No caderno Vida Urbana, o texto narra o acontecido e a denúncia prestada à Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA) pela avó do aluno contra a diretora da escola, que teria chamado o menino de “nego”, “macaco” e “rei da cocada preta”. Na reportagem, o jornal também evidencia a articulação dos movimentos de direitos humanos e do Poder Jurídico em relação ao caso, como o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e a ONG Observatório Negro.

Para Delma da Silva, articuladora regional do MNDH, a visibilidade dada pelo Diario ao fato é importante no sentido de poder contribuir para que novos casos ou antigos sejam revelados. “O destaque da capa chamou a atenção para o problema, que acontece nos mais distintos e improváveis lugares: Quem imaginaria que uma diretora de escola cometesse tal fato?”, completa Delma.

Delma ainda diz que “a matéria gerou uma articulação em mobilizar uma rede protetiva para a família. O MNDH elaborou a nota, o Observatório Negro analisou o caso juridicamente, e o Ministério Público já está informado e atuando de forma articulada à Defensoria de Educação da Criança e Adolescente”.

Outras organizações já entraram nesta rede. O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB) da UFRPE, o Movimento Articulado Negro, a Articulação Negra de Pernambuco, todos estão a postos para destrinchar este caso específico e para apurar outros – pois há denúncias de que outras crianças, nesta mesma escola, foram vítimas de racismo.

Assim, a notícia também contribuiu para uma discussão sobre o problema do racismo na educação, ampliando os atores de articulação e os espaços para o debate. Afinal, o jornalismo sugere temas ao debate cotidiano, como deixou claro, nos anos 1970, Maxwell McCombs e Donald Shaw em sua teoria do agendamento.

Felizmente, o Diario de Pernambuco não foi indiferente ao que aconteceu na escola de San Martín, colocou em destaque o caso e impulsionou a mobilização de organizações que podem levar a cabo os questionamentos, as lacunas e problemática da discriminação racial.

Leia mais

Nota do Movimento Nacional de Direitos Humanos de Pernambuco sobre o caso

A matéria do Diario de Pernambuco

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

Realização:

Apoio: