*Foto da home: Recife Resite e Centro de Mídia Independente (CMI)

O protesto dos estudantes pernambucanos contra o reajuste das passagens de ônibus foi um dos fatos de maior visibilidade na mídia local nos últimos dias. A mobilização aconteceu na última terça-feira, dia 12, e repercutiu durante toda a semana.

O Jornal do Commercio, o Diario de Pernambuco e a Folha de Pernambuco cobriram a manifestação. Com exceção do falho enquadramento dado pelo DP ao protesto, as matérias do JC e da Folha se assemelham, com um equilíbrio entre as fontes, dando voz aos representantes estudantis (UEP, Uespe, UNE), a trabalhadores, como também a motoristas.

Lamentavelmente, o Diario de Pernambuco elaborou uma reportagem que tece um discurso demasiado negativo sobre o protesto e o movimento estudantil. Primeiramente, nenhum dos representantes das entidades de estudantes foi entrevistado ou teve espaço na matéria Mais uma vez, a cidade refém. As fontes eram, sobretudo, motoristas que estavam parados no engarrafamento, ocasionado e profetizado pela manifestação “se a passagem não baixar, o Recife vai parar”.

O enquadramento é unilateral e exemplo do que não é um bom jornalismo. Para o DP, a manifestação atrapalhou o tráfego e “o direito de ir e vir dos proprietários de veículos”. Irônico falar em direito de ir e vir quando a luta principal do protesto é pela qualidade do transporte coletivo no Recife, o qual teoricamente deveria ser priorizado pelo Estado, a fim de garantir mobilidade e acessibilidade para a maior parte da população.

Igor Cabral, mestrando em Comunicação da UFPE, ao ler o texto do DP, diz que a matéria parece ter sido construída a partir de “equívocos”, pois o jornalista “reduz o  Recife à Zona Sul e a população aos motoristas, proprietários de veículos”.

O binômio protesto/trânsito

Seja manifestação estudantil, do MST, de ambulantes, seja qualquer grupo de indivíduos em seu direito de protestar nas ruas; no jornalismo local o trânsito é sempre contraponto do movimento de protesto. A motivação em estar nas ruas, as reivindicações e os diversos primas do problema notadamente são colocados para segundo plano, e o fato pontual – houve um protesto, que gerou engarrafamento – ganha mais visibilidade em detrimento de uma discussão analítica da situação.

Na quinta-feira, os estudantes fizeram mais uma passeata, e o trânsito, numa matéria suíte da Folha de Pernambuco, foi mais uma vez elemento-chave na linha argumentativa do texto. O sociólogo da comunicação Dacier Barros, professor da UFRN, “entende que o jornal atende à expectativa do seu leitor e, evidentemente, se empenha em reforçar os valores ideologicamente dominantes”. De acordo com esta opinião, o DP legitima que seu leitor médio provém de uma classe que não utiliza transporte público e que será de maior interesse seu saber quais vias da cidade estão congestionadas.

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Trânsito fechado, diálogo aberto – Jornal do Commercio

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