Por Marco Mondaini*

Mais do que nunca, a seção de Cartas dos Leitores representa, nos dias atuais, o espaço ideal para a apresentação de determinadas idéias e expressões que a direção do jornal teria o imenso prazer de estampar no seu editorial, mas que, por razões instrumentais, acaba não realizando.
 Deixando de lado as teorias conspiratórias e a ingenuidade política (que é o seu extremo oposto não menos equivocado), recuso-me a acreditar que o fato assinalado (ver cartas abaixo) ocorra devido a uma questão de escrúpulo ou à pura pressão do discurso politicamente correto.

De fato, os obscuros juízos que ecoam em algumas cartas dos leitores nada mais são que a expressão da mistura entre “ideologia da participação na mídia democrática” (a falácia de que as páginas dos jornais estão permanentemente abertas às manifestações do público leitor) com a mais elementar “estratégia de legitimação do conservadorismo jornalístico” (ora, dirá a direção do jornal, esta é a opinião livre dos nossos leitores!).

Um exemplo claro dessa “estratégia de legitimação” por meio da fala dos leitores pode ser observado na semana passada, quando um missivista de São Paulo, nas páginas do Jornal do Commercio, conseguiu em pouquíssimas linhas sintetizar toda a cartilha de criminalização dos movimentos sociais, ao afirmar que “o famigerado MST já fez a sua primeira invasão urbana inaugural” e que caberia agora “observar se a nova governante respeitará a Constituição brasileira ou adotará o PNDH3”.

Nada mais que um caso isolado, dirão aqueles que acreditam na existência de uma imprensa democrática e plural em nosso país, espaço por meio do qual a opinião pública livre se manifesta. Pois bem, escrevo estas linhas logo depois de ter lido mais um exemplo explícito de criminalização dos movimentos sociais, na mesma seção de Cartas, do mesmo Jornal do Commercio, contra o mesmo MST.

As palavras contidas na carta falam por si sós: se o fundador do MST receber a medalha do mérito legislativo, “vou querer que também o seja a todos os marginais violentos que infestam o nosso sofrido país”.

*Historiador e Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
* Opinião veiculada na seção “Carta aos leitores”, publicada no Jornal do Commercio em 04/11/2010.

CARTAS:

“Começou”
Mal a candidata do governo Dilma Roussef foi declarada presidente deste pobre País, o famigerado Movimento dos Sem-Terra (MST), já faz a sua primeira invasão urbana inaugural, invadiu e espancou o prefeito de Borebi, cidade símbolo do poder destruidor do MST. Pois nessa pequena cidade que esses anarquistas invadiram, saquearam e destruíram uma propriedade agrícola, tudo sob o olhar complacente e cúmplice do governo federal. Vamos apenas observar se a nova governante respeitará à Constituição brasileira ou adotará o PNDH3, oficializando as invasões urbanas e rurais no Brasil.
» Lauro Fujihara – São Paulo – lauro@healthquality.com.br

* Opinião veiculada na seção “Carta aos leitores”, publicada no Jornal do Commercio em 10/11/2010.

Indignação
Não é porque votei em Dilma (votei muito mais contra o Serra), que perdi minha capacidade de indignar-me. O que li nessa coluna no dia 8, carta escrita pelo leitor Gil Ferreira deixou-me boquiaberto. A pretensão da Câmara dos Deputados em conceder a medalha do mérito Legislativo ao fundador do MST, João Pedro Stedile, clama aos céus. Há tempos não consigo pensar no MST sem que venha à minha mente a destruição dos laranjais da Fazenda Cutrale. Se a honraria for realmente entregue, vou querer que também o seja a todos os marginais violentos que infestam o nosso sofrido país.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

Realização:

Apoio: