No dia que a promulgação Constituição Federal completa 30 anos, datada em 6 de novembro, o SBT, do empresário Silvio Santos, lançou uma campanha publicitária com uma série de vinhetas que invocam a propaganda política da Ditadura Militar de 1964 a 1985. O slogan utilizado, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, surgiu durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, entre 1969 e 1974, período conhecido como “Anos de Chumbo”, em que os governantes tinham o poder de punir arbitrariamente os que fossem opositores do regime ou considerados inimigo. Além da frase, “Eu te amo, Meu Brasil”, da dupla Dom e Ravel, era executada na tela com imagens do país.

A iniciativa da emissora é emblemática e nos alerta de como as empresas de comunicação podem se relacionar com o presidente eleito e o que o mesmo representa e dissemina. Ainda em campanha eleitoral, Jair Bolsonaro afirmou em entrevista que seu objetivo era fazer um Brasil semelhante há 40, 50 anos atrás. O SBT quis garantir sua verba da publicidade oficial e seu prestígio frente ao novo governo, que já mostrou como a imprensa será tratada no seu mandato [link]. Episódio que já é comum na história da emissora. No governo de João Figueiredo, no qual Silvio Santos recebeu a concessão da emissora – que antes chamava-se TVS -, o empresário criou o programa “Semana do Presidente” para veicular as ações do então governante.

Após críticas nas redes sociais e relatos horrorizados com as vinhetas, o SBT retirou a propaganda do ar e afirmou, em nota oficial, ter cometido “um equívoco de não se atentar que este bordão foi forte na época do regime militar”. Talvez estejamos vivenciando a época com mais cinismos e falta de responsabilidade não só da mídia hegemônica, mas de parte da sociedade, que elegeu e compactua com as ideias de um regime fechado e autoritário. O compromisso com a população fica em segundo plano no momento em que o termo “equívoco” foi utilizado para justificar uma atitude feita conscientemente e com propósitos pelo veículo.

O saudosismo e as lembranças positivas referentes a ditadura militar chamam atenção para um problema enraizado na história do país. O regime militar deixou o poder há apenas 33 anos. A ditadura militar foi finalizada somente com uma “canetada”, não havendo documentos oficiais da época. Sempre que o Comando do Exército Brasileiro é questionado sobre arquivos que estavam em seu poder, a instituição afirma que foram destruídos.

No mesmo país no qual a escravidão – e consequentemente o racismo -, foi dada como extinguida apenas com a Lei Áurea e, todavia, continuou sendo perpetuada, esquecida e negligenciada devido a pouca reparação histórica realizada, a lei que concedia anistia aos que tivessem cometido “crimes políticos ou praticados por motivação política” foi assinada em 1979. Torturadores e assassinos foram inocentados e a ditadura militar segue impune no Brasil. Ao contrário de nossos vizinhos, por exemplo, como Chile, Argentina, Uruguai, Peru e El Salvador julgaram e puniram os responsáveis pelos crimes das respectivas ditaduras.

O que nós vemos hoje é apenas reflexo da história de um país que não curou suas feridas devidamente e negou a existência dela por tantos anos, diferente de países que tiveram episódios tão sangrentos quanto os nossos como a Alemanha. O país europeu construiu museus, monumentos, datas e tem a história do nazismo no programa de todas as escolas no país, para que o passado não seja esquecido e se repita. No Brasil, o caminho para percorrermos ainda é longo.

 

Edição: Rosa Sampaio

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