Diferentemente de outros espaços do meio impresso, as colunas – de diversas temáticas e formatos – encerram opiniões individuais, nem sempre legitimadas pelo veículo. No entanto, mesmo não compactuando com o discurso do colunista, o jornal atua como suporte de divulgação e, consequentemente, o discurso individual atinge um público considerável.

Nesta segunda-feira, o jornalista Robson Sampaio publicou em sua coluna Folha da Cidade, da Folha de Pernambuco, o texto Teatro da Vida, que esboça algumas supostas diferenças entre homens e mulheres. Seu discurso, permeado por frases que depreciam a mulher, denota preconceito e se torna um desserviço à luta das mulheres por espaços de igualdade de atuação política e social.

Robson Sampaio, em seu texto, parece desconhecer os espaços já conquistados pela mulher e discursa clichês machistas. Como afirma a educadora Sílvia Camurça, do Instituto Feminista para Democracia SOS Corpo, “este senhor provavelmente não tem nada de mais inteligente a escrever, então fica repetindo máximas machistas como se fossem originais”, diz. “Sem dúvida, deve ser uma tentativa para chamar a atenção para sua coluna”, completa.

Para a educadora social feminista, Beth Amorim, da Rádio Mulher Litoral FM, o texto do jornalista não demonstra apenas preconceito, legitima também a violência de gênero. De acordo com Beth, “comentários e pensamentos como estes são uma das ferramentas que a sociedade machista e patriarcal usa para justificar, alimentar e referendar a violência contra as mulheres”.

No entanto, qual deveria ser a posição do jornal em relação ao colunista? O veículo de comunicação – que, por legislação, deve defender e promover a garantia de direitos individuais e coletivos, principalmente de crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias – não deveria filtrar publicações como esta, que desrespeitam a ética jornalística e contribuem para a manutenção do estigma da inferioridade da mulher em relação ao homem?

Para Ana Veloso, professora de Comunicação e jornalista, o jornal deve primar pela excelência. Assim, “caberia ao veículo um diálogo com seus profissionais no sentido de propor ações educativas, em sintonia com os Direitos Humanos”, afirma. Ana ainda ressalta que o veículo erra ao esquecer que parte de seu público-leitor se sentirá ofendido com publicações como Teatro da Vida. “Se o jornal pensar no seu público, não irá publicar; se está atingindo um segmento de seus leitores”, diz.

Infelizes as palavras escritas pelo jornalista, mas também displicência e irresponsabilidade da Folha de Pernambuco em publicar em suas páginas lamentável discurso. “Pautar, defender e veicular bons conteúdos nos meios de comunicação é um direito e dever constitucional; o inverso, não”, afirma Beth Amorim.

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