Por Marco Mondaini*

Aprendi com o Barão de Itararé que, ao contrário do dito popular, “de onde nunca se espera, daí é que não sai nada mesmo”. Pois bem, os dois primeiros meses de 2011 parecem nos ter dado algumas provas de que a máxima do jornalista gaúcho Apparício Torelly não é intocável – vide o grande exemplo do desmoronamento em cascata das ditaduras árabes do norte do continente africano.

Para meu regozijo – e de todos aqueles que estão habituados a ver no Jornal do Commercio o retrato perfeito de uma imprensa conservadora, co-responsável pela legitimação da violência policial cometida cotidianamente contra os habitantes das nossas favelas e periferias –, li no editorial do JC da última sexta-feira, 18 de fevereiro, intitulado Punição para os culpados, um decidido texto de repúdio e condenação às práticas de tortura levadas a cabo cronicamente pelas forças policiais no estado de Pernambuco.

Insisto aqui no sentimento de felicidade que senti ao poder ler no referido editorial referências explícitas a obras e documentos que foram responsáveis pela construção do edifício dos direitos humanos no decorrer da modernidade: de Dos delitos e das penas de Cesare Beccaria à Constituição Federal de 1988, passando pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

Tenho muito poucas dúvidas em relação ao fato de que uma significativa parcela dos leitores do JC sentiu-se desconfortada ao ler nas páginas do seu jornal diário que a decisão do Governador Eduardo Campos de afastar das ruas os policiais militares suspeitos de terem promovido as cenas de humilhação e tortura que circularam pela internet representa uma resposta “desproporcional ao que foi divulgado, mas suficiente para que se restaure a esperança de que há um propósito de instalar o mínimo de dignidade no sistema prisional em Pernambuco”.

Isso porque, para tal público leitor, a melhor saída para a questão prisional em Pernambuco talvez ainda seja o esvaziamento dos cárceres por meio de uma drástica solução: a eliminação física dos que já cometeram crimes e daqueles que ainda estão por cometê-los.

O JC daria uma grande contribuição ao desenvolvimento do Estado democrático de direito se tomasse para si a responsabilidade pedagógica de procurar transformar tal mentalidade pouco civil existente no seio da sociedade pernambucana.

Para tanto, fazendo uso dos mesmos termos empregados pelo Jornal do Commercio, um editorial só é uma resposta desproporcional aos níveis de violência cometidos pela polícia pernambucana, mas suficiente para restaurar o otimismo presente no dito de que “de onde menos se espera, nasce a esperança”.

*Historiador e Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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