Os manuais de redação e os livros sobre técnicas jornalísticas há muito já alertam para o uso da palavra pequena, porém forte, ‘caos’. Alegam que os jornalistas banalizaram o seu uso, significando ora situações rapidamente controladas, ora grandes desastres ou tragédias.

O ‘caos foi estampado hoje na capa do Diario de Pernambuco, se referindo ao protesto de ontem dos comerciantes informais, na Rua 7 de setembro, no Recife. Seguida ao ‘caos’, está a ‘guerr’a, como estão sendo representados os fatos que se relacionam às operações da PM, do Bope e da Marinha contra traficantes, como também aos ataques das milícias a ônibus e automóveis em alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro.

Os dois acontecimentos, naturalmente distintos, dividem a capa do DP, que, forçosamente, busca alguma semelhança entre eles. As fotos — que vão de um canto a outro da página — ilustram o que provavelmente é o único ponto em comum entre os fatos: a presença de policiais.

No Recife, vendedores ambulantes protestaram na Conde da Boa Vista por causa do  reordenamento do comércio informal na Rua 7 de setembro, proposto pela prefeitura da cidade. O grupo de comerciantes ocupou um cruzamento da avenida. O trânsito ficou vagaroso, lojistas fecharam as portas com medo, transeuntes evitavam o local, e a polícia tentava algum tipo de negociação. O protesto chegou ao fim quando os comerciantes aceitaram a proposta da PCR: uma reunião na tarde desta sexta-feira.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro… bom, parece irrelevante descrever aqui, visto a enxurrada de informações — que circulam na imprensa nacional — sobre a fuga de traficantes da Vila do Cruzeiro para o Complexo do Alemão, após a polícia ter ocupado aquela favela.

Qual a necessidade de aproximar estes dois eventos em uma capa de jornal? Alfredo Vizeu, professor de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ao analisar a capa do DP, relembra que o jornalismo funciona de uma forma temática. Neste caso, “o tema pode ser semelhante — violência, de forma geral — mas são histórias diferentes, contextos diferentes”. Para o professor, esta aproximação feita entre as matérias “acaba dizendo que é tudo igual, o que beira o impacto e a espetacularização”.

Vizeu diz que o jornal deve ter cuidado com o que emoldura em sua capa, pois ela é seu “rótulo”. Relacionar, forçosamente, as duas matérias está na fronteira do espetáculo, na lógica do vender. O professor ainda completa que, dar visibilidade a esta relação, perpassa a conduta ética de seus editores.

Boatos

Ainda no DP, quando mergulhamos na leitura das reportagens sobre o protesto no centro do Recife, uma das vinculadas, cujo título é Sobrou para a população, chama a atenção. O enquadramento da reportagem é a onda de boatos que circulou no centro da cidade na tarde de ontem, enquanto os ambulantes interrompiam a avenida.

De acordo com a matéria, houve o boato inicial – de arrastão – que gerou correria nas ruas. Notadamente, a reportagem diz que “o boato que estava havendo um arrastão foi plantado por volta das 16h30 em pontos estratégicos do centro”, deixando implícito que isso foi algo planejado, até mesmo pelos ambulantes. Além disso, não há informações claras, na matéria, sobre a origem do disse-me-disse.

A reportagem ainda termina dando ênfase a um segundo boato, de que nesta sexta-feira haveria mais pânico no centro do Recife. O jornalista utiliza assumidamente o boato, que é uma especulação sem fundamento, e lhe dá valor informativo, o que torna sua matéria irrelevante e sem credibilidade.

Comparações

Ao analisarmos conjuntamente as reportagens principais que saíram no Diario de Pernambuco e no Jornal do Commercio sobre a questão do comércio informal, percebemos os espaços que cada jornal deu aos discursos dos atores envolvidos no fato.

O JC divide melhor as falas. Além da posição da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Recife, que deu início ao processo de mudanças na 7 de setembro, a reportagem evidencia as colocações dos comerciantes, como também dos seus representantes institucionais, o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio Informal de Pernambuco e a Associação dos Ambulantes do Bairro da Boa Vista.

Diferentemente, o DP em momento algum da reportagem Ambulantes tumultuam o Centro inclui as opiniões dos comerciantes, tampouco de suas instituições representativas.

Leia as matérias

Sobrou para a população – Diario de Pernambuco

Ambulantes tumultuam o centro – Diario de Pernambuco

 

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