Tiago Eloy Zaidan*

Convenientemente anunciado no dia 7 de janeiro, em meio às férias escolares, o reajuste de 8,66% nas passagens de ônibus na grande Recife não demora a causar reação. Já no dia 11, estudantes ligados a entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe) organizaram passeata e manifestações na área central da capital, atraindo a atenção da polícia e da imprensa local, que, por seu turno, cumpre papel que fatalmente remete à categoria althusseriana de Aparelho Ideológico de Estado.

O movimento não é unânime entre os pedestres e os motoristas engarrafados. O Jornal do Commercio do dia 12 de janeiro chega a anunciar que o trânsito redundante da manifestação estende-se até a Praça de Boa Viagem. Contudo, o próprio jornal elenca, entre brados oposicionistas, simpatizantes ao movimento. Dentre eles, até mesmo alguns motoristas. Já no dia seguinte, ainda o Commercio anuncia que o aumento instiga a instauração de procedimento preliminar por parte da promotoria de Defesa dos Direitos do Consumidor do Ministério Público de Pernambuco.

O episódio, de múltiplas facetas, acaba restrito na manchete cunhada pelo jornal Folha de Pernambuco, do grupo de Eduardo Queiroz Monteiro, do dia 12, que bem poderia ser reaproveitada no topo de uma matéria sobre enchente ou abertura de vala nas ruas centrais de Recife: “Centro parado por cinco horas”. O jornal chega a citar o caso de uma motorista que, presa no transito, desespera-se por sua filha de três anos, que está “(…) no hotelzinho desde às três horas da tarde (…) estou sem poder me deslocar. Isso é um absurdo”, teria dito.

Mas foi diante dos desdobramentos do dia 11 que os discursos assumem postura mais clara. Quiçá, nem mesmo a Polícia Militar, que acompanha a primeira passeata e faz-se presente no foco da interdição do Cais de Santa Rita, chegando a articular um ultimato, mostra-se mais intolerante. Como de hábito, o âmago da manifestação per si, não passa de um ilustre ausente nas manchetes e nos leads das matérias. Vide o lead subseqüente à manchete “Mais uma tarde de caos no trânsito”, do Diário de Pernambuco, dos Associados, do dia 14 de janeiro:

Trânsito parado, pedestres perdidos e lojistas acuados. Esse foi o retrato de mais uma tarde de caos no Centro do Recife. Pela segunda vez nesta semana, a cidade parou. Quem tentou circular, ontem, de carro ou ônibus pelas principais vias da região perdeu tempo e a paciência. Mais uma vez, entidades estudantis, com o apoio de alguns movimentos e partidos de esquerda, realizaram uma manifestação contra o reajuste de 8,66% nas passagens de ônibus. Quem tentava furar os bloqueios era impedido.

A julgar pela primeira frase, a matéria versa sobre um atentado a bomba. Remete ainda às convencionais coberturas dos efeitos das reações do crime organizado numa comunidade sitiada. Trata-se de uma trova coringa, três orações para a criminalização de quem precisa ser criminalizado.

No mesmo dia, sobre o assunto, o Jornal do Commercio e a Folha de Pernambuco manchetam, respectivamente: “Novo protesto, mais transtornos” e “Estudantes param o centro novamente”. Desta vez, o JC, do Grupo João Carlos Paes Mendonça, abre mão do relativo equilíbrio dos depoimentos colhidos no contexto da manifestação do dia 11. Permeiam a matéria depoimentos que dão conta da dificuldade de “(…) pensar em apoio ao protesto tendo que andar a Conde da Boa Vista inteira depois de largar do trabalho”. Uma aposentada teria afirmado que “Pagar R$ 2 de passagem é um assalto. Mas pagar passagem a R$ 2 e ter que descer para andar quilômetros porque tem um protesto acontecendo, deve ser bem pior”.

E a manifestação, abordada sem nenhuma significação, acaba, por fim, apresentada como o verdadeiro estorvo. Pior até que as causas que a motivam. Causas que, a bem da verdade, quase são esquecidas na cobertura, em detrimento de uma nervosa e curiosa pressão por ações efetivas de repressão. Repressão não necessariamente policial, mas da opinião pública, cujo efetivo é maior que qualquer batalhão.

Não à toa, coberturas como essa redundam em algumas cartas de leitores que chamam atenção pelo tom exasperado e reacionário, como a missiva de um leitor olindense, publicada nos jornais Folha de Pernambuco e Jornal do Commercio, em 20 de janeiro:

É incrível a falta de autoridade da polícia contra os constantes bloqueios de protestos populares no Centro do Recife e em rodovias de intenso tráfego. (…). Moral da história: milhares de pessoas são cerceadas do direito de ir e vir, por causa de meia dúzia de perturbadores da ordem pública. Sugiro que deveria haver uma tolerância de uns 15 minutos em cada protesto, e a partir daí a polícia partiria para a força.

Disponibilizado de forma estendida na Folha, o texto sugere exatamente o que as manchetes parecem querer expressar, mas que encontra espaço mais apropriado na seção do leitor, que, embora denominada “do leitor”, não está imune aos processos de enquadramento e padronização estabelecidos na grande imprensa.

*Jornalista e Mestre em Comunicação pela UFPE.

O aumento de passagem, as manifestações e os jornais

Tiago Eloy Zaidan*

Convenientemente anunciado no dia 7 de janeiro, em meio às férias escolares, o reajuste de 8,66% nas passagens de ônibus na grande Recife não demora a causar reação. Já no dia 11, estudantes ligados a entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe) organizaram passeata e manifestações na área central da capital, atraindo a atenção da polícia e da imprensa local, que, por seu turno, cumpre papel que fatalmente remete à categoria althusseriana de Aparelho Ideológico de Estado.

O movimento não é unânime entre os pedestres e os motoristas engarrafados. O Jornal do Commercio do dia 12 de janeiro chega a anunciar que o trânsito redundante da manifestação estende-se até a Praça de Boa Viagem. Contudo, o próprio jornal elenca, entre brados oposicionistas, simpatizantes ao movimento. Dentre eles, até mesmo alguns motoristas. Já no dia seguinte, ainda o Commercio anuncia que o aumento instiga a instauração de procedimento preliminar por parte da promotoria de Defesa dos Direitos do Consumidor do Ministério Público de Pernambuco.

O episódio, de múltiplas facetas, acaba restrito na manchete cunhada pelo jornal Folha de Pernambuco, do grupo de Eduardo Queiroz Monteiro, do dia 12, que bem poderia ser reaproveitada no topo de uma matéria sobre enchente ou abertura de vala nas ruas centrais de Recife: “Centro parado por cinco horas”. O jornal chega a citar o caso de uma motorista que, presa no transito, desespera-se por sua filha de três anos, que está “(…) no hotelzinho desde às três horas da tarde (…) estou sem poder me deslocar. Isso é um absurdo”, teria dito.

Mas foi diante dos desdobramentos do dia 11 que os discursos assumem postura mais clara. Quiçá, nem mesmo a Polícia Militar, que acompanha a primeira passeata e faz-se presente no foco da interdição do Cais de Santa Rita, chegando a articular um ultimato, mostra-se mais intolerante. Como de hábito, o âmago da manifestação per si, não passa de um ilustre ausente nas manchetes e nos leads das matérias. Vide o lead subseqüente à manchete “Mais uma tarde de caos no trânsito”, do Diário de Pernambuco, dos Associados, do dia 14 de janeiro:

Trânsito parado, pedestres perdidos e lojistas acuados. Esse foi o retrato de mais uma tarde de caos no Centro do Recife. Pela segunda vez nesta semana, a cidade parou. Quem tentou circular, ontem, de carro ou ônibus pelas principais vias da região perdeu tempo e a paciência. Mais uma vez, entidades estudantis, com o apoio de alguns movimentos e partidos de esquerda, realizaram uma manifestação contra o reajuste de 8,66% nas passagens de ônibus. Quem tentava furar os bloqueios era impedido.

A julgar pela primeira frase, a matéria versa sobre um atentado a bomba. Remete ainda às convencionais coberturas dos efeitos das reações do crime organizado numa comunidade sitiada. Trata-se de uma trova coringa, três orações para a criminalização de quem precisa ser criminalizado.

No mesmo dia, sobre o assunto, o Jornal do Commercio e a Folha de Pernambuco manchetam, respectivamente: “Novo protesto, mais transtornos” e “Estudantes param o centro novamente”. Desta vez, o JC, do Grupo João Carlos Paes Mendonça, abre mão do relativo equilíbrio dos depoimentos colhidos no contexto da manifestação do dia 11. Permeiam a matéria depoimentos que dão conta da dificuldade de “(…) pensar em apoio ao protesto tendo que andar a Conde da Boa Vista inteira depois de largar do trabalho”. Uma aposentada teria afirmado que “Pagar R$ 2 de passagem é um assalto. Mas pagar passagem a R$ 2 e ter que descer para andar quilômetros porque tem um protesto acontecendo, deve ser bem pior”.

E a manifestação, abordada sem nenhuma significação, acaba, por fim, apresentada como o verdadeiro estorvo. Pior até que as causas que a motivam. Causas que, a bem da verdade, quase são esquecidas na cobertura, em detrimento de uma nervosa e curiosa pressão por ações efetivas de repressão. Repressão não necessariamente policial, mas da opinião pública, cujo efetivo é maior que qualquer batalhão.

Não à toa, coberturas como essa redundam em algumas cartas de leitores que chamam atenção pelo tom exasperado e reacionário, como a missiva de um leitor olindense, publicada nos jornais Folha de Pernambuco e Jornal do Commercio, em 20 de janeiro:

É incrível a falta de autoridade da polícia contra os constantes bloqueios de protestos populares no Centro do Recife e em rodovias de intenso tráfego. (…). Moral da história: milhares de pessoas são cerceadas do direito de ir e vir, por causa de meia dúzia de perturbadores da ordem pública. Sugiro que deveria haver uma tolerância de uns 15 minutos em cada protesto, e a partir daí a polícia partiria para a força.

Disponibilizada de forma estendida na Folha, o texto sugere exatamente o que as manchetes parecem querer expressar, mas que encontra espaço mais apropriado na seção do leitor, que, embora denominada “do leitor”, não está imune aos processos de enquadramento e padronização estabelecidos na grande imprensa.

*Jornalista e Mestre em Comunicação pela UFPE.

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