Neste artigo, o coletivo de contra-informação Recife Resiste analisa matéria do Diario de Pernambuco referente ao protesto estudantil contra o reajuste de passagens e lança questões pertinentes sobre a dinâmica urbana do Recife, o direito à cidade e o isolamento da periferia. Durante as semanas de protesto, a equipe do Recife Resiste fez a cobertura das manifestações no centro da cidade.

As manifestações contra o aumento das passagens foi um dos acontecimentos que mais recebeu cobertura da mídia local recifense nas últimas semanas. Foram vários os enfoques dados às manifestações, sendo um ponto comum o destaque aos engarrafamentos causados pelos protestos. Tal abordagem muitas vezes ofusca o assunto que, em tese, seria o objeto principal da matéria: o protesto gerado por mais um aumento das passagens de ônibus. Dentre tantos discursos formulados acerca do tema se  destaca a matéria do Diário de Pernambuco (DP) intitulada “Mais uma vez, a cidade é refem”¹. Quando fala de cidade, em quem e no que o Diário de Pernambuco está pensando?

Em dezembro de 2003 uma equipe do SETRANS-PE (Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco) publica que o transporte público é um poderoso aliado de uma política de inclusão social e de combate à pobreza². O direito à cidade é uma das conquistas mais básicas que uma população urbana deve ter, mas no Recife esse direito foi usurpado por uma classe empresarial composta por algumas famílias. O transporte aqui não existe primordialmente pela necessidade de mobilidade, mas se aproveita criminosamente dessa necessidade para produzir gordos lucros para as gordas panças desses empresários. A necessidade simples de mobilidade urbana não é atendida e as pessoas ou encaram o assalto, gastando parte significativa da renda apenas para o transporte, ou surfam nos ônibus ou recorrem às bicicletas quando podem, arriscando a vida enfrentando a tirania de um tráfego lotado de carros, sem o mínimo de ciclo-estrutura e segurança.

É comum a todas as grandes cidades o isolamento, ou a tentativa de isolamento, da pobreza. A elite busca ocultar tudo aquilo que fere seus olhos, mas que paradoxalmente é produto de um sistema defendido dia e noite por ela mesma. A miséria do capitalismo não pode ofuscar os grandes sinais de desenvolvimento que o poder anuncia, por isso o trabalho de isolamento deve ser sistemático. Esse isolamento é produzido por um ordenamento geográfico-imobiliário que joga os pobres para as periferias, longe dos locais de interesse da elite, e dificultam o acesso à cidade negando o investimento em transporte gratuito e de qualidade.

Protestar indignado com a privatização do transporte que deveria ser público é protestar contra a usurpação do direito de ir e vir e não ao contrário, como falaciosamente afirma o Diário de Pernambuco. Para esse jornal, ter uma estrutura de transporte precária e cara, inacessível a grande parte da população não fere o direito à mobilidade, mas impedir por um dia que a classe média busque suas crianças na escola o fere criminosamente, sequestra a cidade por algumas horas, daí concluímos: o direito de ir e vir só faz sentido quando é a elite no carro. O Diário de Pernambuco não pode esconder: ele fala por e para uma classe, para os interesses dos que lucram com o direito de ir e vir.

Para que o discurso do DP faça sentido é preciso se esforçar para ser um dos únicos falantes e não para ter um jornalismo respeitável. Sendo um dos únicos falantes seu discurso adquire uma condição de neutralidade, constrói fatos, uma realidade cotidiana que mesmo não passando de uma interpretação das mais medíocres aparece como a verdade.

Na matéria em questão os jornalistas do Diário se preocuparam em entrevistar apenas aqueles personagens que eram contra o ato, parecendo diversificar nas classes sociais: entrevista uma usuária de ônibus e alguns motoristas de automóvel, mas o que importa é que ambos estão contra a manifestação.  Esta cobertura foi feita aos gritos de “mídia golpista” por parte do movimento que não reconhece a voz da mídia corporativa e que, de alguma forma, gritou em desespero por saber que não teria o direito à voz –  é importante dizer, que o aumento das passagens não foi sequer lembrado na matéria.

O Diário de Pernambuco fala que a manifestação criou um caos, mas não precisamos de manifestações para que o trânsito em Recife se encontre num caos, o próprio modelo de transporte rodoviário falido já é um caos por ele mesmo, mas isso não sai no Diário de Pernambuco porque questionar a hegemonia do transporte rodoviário-motorizado é mexer com interesses industriais e empresariais que o Diário pretende manter intocáveis. Recife, enquanto aglomeração urbana e industrial já é fundada sob o caos, não é o caos que preocupa o Diário de Pernambuco, a num ser que caos, para o jornal, seja muito mais um trânsito parado por pouco menos de duas horas do que uma massa de indivíduos largados a toda sorte de atividades, lutando contra a pobreza e pela sobrevivência e convivendo dia-a-dia com a brutalidade policial, que parece tão aliada do DP que seus discursos sobre a ordem se confundem e se fundem.

À primeira vista o que parece incentivar o DP a insistir, em tom cinicamente apelativo, na paralisação do trânsito como contraponto ao protesto é que a paralisação aparece como uma consequência negativa imediata de um ato político nas ruas. O que o DP se preocupa, na verdade, é em deslegitimar a manifestação política, seja ela qual for, se esforçando em proteger seus aliados, aliados esses que não fazem política nas ruas, eles estão longe delas, longe dos metrôs, longe dos ônibus, estão, nesse caso, nos gabinetes da Grande Recife Consórcio de Transporte fazendo cálculos com um único, medíocre e desumano objetivo: lucro, lucro, lucro!

Recife Resiste!

¹Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/2011/01/12/urbana6_0.asp#*
(último acesso em janeiro de 2011).
²Disponível em: http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/seminario/cidade_24.pdf (último acesso em janeiro de 2011).

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