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“Queremos um novo ecossistema de informação”

Sérgio Miguel (segundo da direita para a esquerda) aposta no DNA colaborativo da populaçao pernambucana (foto: Marco Zero)

Sérgio Miguel (segundo da direita para a esquerda) aposta no DNA colaborativo da populaçao pernambucana (foto: Marco Zero)

ENTREVISTA/SÉRGIO MIGUEL BUARQUE

Por: Victoria Ayres

Sempre na redação, Sérgio Miguel Buarque passou grande parte da vida profissional dentro do Diário de Pernambuco, onde chegou a posições de chefia no chamado “jornal mais antigo em circulação da América Latina”, integrante dos Diarios Associados. Queria mais. Mais liberdade. Mais controle sobre o conteúdo que disponibilizava. Mais diversidade na cobertura. Mais independência, seja do mercado publicitário, seja do governo. O jornalista (agora empreendedor) é um dos idealizadores da Marco Zero Conteúdo, uma agência de notícias de Recife, lançada esta semana, que une outros jornalistas com a bagagem cheia de experiência e a cabeça cheia de sonhos. O mote principal é estimular o jornalismo independente e aprofundado, coisa que está em falta não só no Recife, mas na grande mídia como um todo. Sérgio nos contou sobre sua insatisfação com o jornalismo, o que ele acha que precisa ser feito, quais as propostas e projetos do Marco Zero e também sobre o potencial que Recife tem como ambiente de colaboração.

OMBUDSPE – O que te fez deixar o emprego para começar um projeto como a Marco Zero Conteúdo?
SÉRGIO MIGUEL BUARQUE Trabalhei 15 anos no Diário de Pernambuco. Entrei como repórter de esportes, depois passei a ser editor-assistente de esporte, depois passei a ser editor de política. Quando saí, nos últimos sete anos que eu passei lá no jornal, eu fiquei como editor executivo. Essa saída grande imprensa foi um processo que não começou de forma repentina, eu vinha tendo um sentimento que cada vez eu encontro mais pessoas que sentem algo similar, de ter uma certa insatisfação, talvez uma desilusão, de achar que não tem mais espaço para avançar naquilo que você acredita, num jornalismo que cumpre sua função social, que atenda seus objetivos, que confronte o poder político-econômico estabelecido, que fiscalize e cobre tanto dos políticos quanto dos empresários, que oriente a opinião pública e que promova o debate. Cada vez menos a gente tem espaço de fazer isso na grande mídia.

OMBUDSPE – Quem forma a equipe do Marco Zero?
SMB – Além de mim, há Carol Monteiro, Inácio França, Luiz Carlos Pinto, Laércio Portela, Samarone Lima, Joel dos Santos, que fica em São Paulo, Taís Nascimento, a designer e Inês Campelo. Esse é o nosso núcleo inicial, mas pretendemos expandir o número de colaboradores de forma a criar de fato uma rede mais ampla. Queremos criar essa rede de colaboração, também para nos dar força, pessoas que possam nos dar uma retaguarda boa e que ajudem a formar uma opinião pública.

OMBUDSPE – Como a Marco Zero está pensando em manter de forma independente financeiramente?
SMB – Do ponto de vista de modelo de negócios, primeiro criamos uma personalidade jurídica, o Centro de Estudo de Mídia, o Marco CEM, que é uma espécie de ONG, que tem como um de seus principais objetivos a manutenção da Marco Zero e o seu site. Esse centro também fará parcerias com outras instituições, além de ter uma lojinha virtual onde venderemos produtos nossos, mas de entidades e movimentos parceiros também, tais como livros, camisas, etc. Fora isso, realizaremos cursos de formação também e quatro deles já estão abertos a inscrições, são de ativismo digital, um de oficina das palavras, para desenvolver a escrita criativa, usando ferramentas da crônica e da literatura, empreendedorismo em jornalismo, para que os novos jornalistas de agora não fiquem tão presos às grandes empresas e consigam tocar seu próprio negócio, e o último é de criação de portfólio. Além desses cursos e da lojinha, pensamos em fazer também seminários, prestar serviços de consultoria, mas principalmente, pediremos doações. Dependendo da evolução da Marco Zero, temos também a ideia de criar algum tipo de assinatura e sempre tentar estimular o financiamento coletivo, que vale mais para projetos pontuais. Queremos também incentivar o fortalecimento de um novo ecossistema de informação. Acreditamos que quanto maior esse ecossistema, melhor para a comunicação. Nossas matérias estão todas disponíveis, inclusive para fins comerciais. De acordo com nossa política editorial cidadã, tudo que a gente vier a produzir está livre para ser usado. Se desenvolvermos uma planilha pra controlar orçamento público por exemplo, iremos disponibilizá-la gratuitamente, assim como qualquer aplicativo ou banco de dados desenvolvido pela Marco Zero.

OMBUDSPE – Mesmo que a gente tenha visto o financiamento coletivo de projetos como esse de jornalismo independente crescerem no Brasil, tu enxergas o Recife um terreno fértil pra um projeto como a Marco Zero? Tu achas que o público vai responder bem?
SMB – Eu acredito nesse potencial que existe aqui. No caso de Recife, dentre as capitais brasileiras, eu vejo ela como uma das que mais tem capacidade de impulsionar coletivos como o Marco Zero, devido a esse caldo cultural e histórico que temos. Aqui tem acontecido coisas como o Ocupe Estelita, que é um exemplo de uma movimentação que se mantém com financiamento coletivo. Nossa cultura é muito fundada nesse princípio. No carnaval podemos observar isso nos blocos que são feitos entre amigos, por exemplo. Cada um dá uma grana e se consegue levar adiante. Nós estamos apenas no começo, mas conseguimos sentir que o ambiente aqui é bastante acolhedor pra coisas como a Marco Zero Conteúdo.

OMBUDSPE – Como tu avalias a importância de um coletivo de jornalismo independente numa cidade com pouca diversidade de mídia ?
SMB – Essa grande mídia está cada vez mais mergulhada numa crise financeira crônica e isso traz consequências para a qualidade do jornalismo. As redações sofrem cada vez mais com um enxugamento de pessoal, logo, grandes reportagens ficam sem espaço e simplesmente não existem mais. O jornalismo pernambucano se apoia muito no esforço individual dos jornalistas, pois as empresas de comunicação não investem mais num jornalismo aprofundado, é caro fazer uma grande reportagem. Além dessa crise financeira, os jornais estão cada vez mais dependentes de anúncios do governo, então eles não tem mais espaço que contrariem interesses estatais, e também se alinham aos interesses dos anunciantes e do capital privados. No Recife, esse capital vem quase todo de duas fontes: as grandes construtoras e as grandes montadoras. Então são dois interesses bem específicos que dificilmente serão contrariados dentro do jornal. A questão de mobilidade e a questão urbana precisam ser urgentemente debatidas na cidade, e isso é apenas um exemplo dos problemas que rondam os jornais daqui. Sem falar do modo de produção jornalística como um todo, que inclui a manufatura e a distribuição dos jornais. Nós vamos tentar suprir essa necessidade de um jornalismo mais responsável e aprofundado. Mas nós não queríamos que o jornalismo estivesse passando por isso. Se tivermos a oportunidade de trabalhar em conjunto com essa grande mídia e ajudá-la a se recuperar, faremos isso.

OMBUDSPE – Como vocês pensam na relação do coletivo com a academia e com estudantes de comunicação?
SMB – A universidade ainda não se adaptou às novas formas de comunicação, e isso me parece um tanto natural. Primeiro a sociedade muda e depois a academia acompanha. Isso está entre as nossas preocupações e, justamente por isso, temos procurado pensar de que formas podemos agir. Uma delas é um projeto de extensão. Temos algumas propostas e talvez já no próximo ano tenhamos algo em parceira com alguns cursos, e a médio prazo, pensamos em fazer um tipo de curso de especialização, junto à universidade. Chegaram inclusive alguns currículos de estudantes querendo estágio, e embora não não queiramos isso agora, queremos trabalhar com estudantes sim. Por exemplo, fazer um projeto de cobertura da Câmara dos Vereadores de Recife com o tema de urbanismo e mobilidade, em conjunto com os estudantes, com a orientação dos professores e da gente.

OMBUDSPE – Vocês pensam em parcerias com coletivos de comunicação comunitária?
SMB – A ideia da agência é produzir conteúdo para que outros usem. Por exemplo, a gente tem uma ideia que é de fornecer conteúdo para as rádios comunitárias e rádios do interior. Isso é um dos primeiros projetos que a gente tá vendo ou através de algum edital ou ver qual é a melhor maneira de a gente montar o que seria a Rádio Marco Zero, que produziria conteúdo de qualidade para quem quisesse baixar e usar. Além disso, a gente tem uma ideia de realizar cursos de formação para radialistas e blogueiros. Toda cidade tem seu blog (ou seus blogs) e talvez a gente possa ajudar na formação através destes cursos. Isso vai ser melhor quando a gente conseguir fazer com cursos à distância. Também temos um projeto embrionário de formar as pessoas que fazem assessoria de imprensa para os movimentos sociais, para as associações comunitárias… Então isso está no nosso radar, dentro daquele conjunto de coisas que a gente vai ampliando a medida que a gente for conseguindo financiar estas coisas.