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PEC do fim do mundo: truculência política, policial e midiática

Por Daniela Marreira*

O dia 29 de novembro de 2016 foi um dia marcado por tragédias: acidente aéreo, violência policial e ataques diretos à Democracia e aos direitos da população brasileira. Mas na imprensa, só um deles ganhou destaque. E sabemos bem qual foi.

Durante a sessão para a votação em primeiro turno da PEC 55, a PEC do Teto de Gastos Públicos, que prevê congelamento de gastos em diversas áreas por 20 anos, grupos de diversos estados do país se reuniram em frente à Esplanada dos Ministérios para realizar um ato pacífico contra a PEC e seus impactos negativos, principalmente para a saúde e educação.

Estima-se que a manifestação contava com mais de 10 mil pessoas, que entoavam palavras de ordem como “Fora, Temer” e “diretas já”, mostrando sua indignação contra o presidente que assumiu após o golpe parlamentar-midiático.

Como resposta ao ato e à indignação mostrada em frente à Esplanada, os manifestantes receberam a truculência policial em forma de bombas de efeito moral e spray de pimenta. De acordo  com o portal “Jornalistas Livres”, veículo de mídia independente, a violência começou quando um policial atirou spray de pimenta contra uma mulher que, de braços erguidos, pedia para não sofrer ataques gratuitos de violência. Ao tentarem proteger a manifestante ferida, todos as pessoas ao redor se tornaram alvos da polícia.

Manchete da matéria do portal “Jornalistas Livres”, do dia 29 de novembro de 2016

Mas, segundo os portais online dos principais jornais pernambucanos, a ação policial não passou de uma reação a ao que chamaram de “vandalismo” dos manifestantes. Durante e após o confronto, os jornais divulgaram matérias cujas manchetes enfatizavam as “depredações” ocorridas durante a manifestação, utilizando-as como motivo para a ação da polícia militar que, ainda segundo os portais, agiu apenas na tentativa de dispersar os manifestantes que causavam tumulto, no máximo, avançando com uma “ação mais intensa”.

Manchetes de matérias veiculadas nos portais do Diário de Pernambuco, Folha de Pernambuco e Jornal do Commercio, no dia 29 de novembro de 2016.

Num país onde, historicamente, a mídia hegemônica é partidária, parcial e controlada por poucos, a criminalização de movimentos sociais é rotina. Podemos ver essa parcialidade quando o jornal escolhe ouvir apenas a polícia e aos políticos – favoráveis ao atual governo golpista de Temer – e não os manifestantes, movimentos sociais e organizações contrárias à proposta do governo quando decide dar voz à crítica de Temer às manifestações, mas não procura mostrar a fundo o motivo da indignação dos movimentos sociais.

Em tempos de manipulação de notícias e exclusão de pluralidades de pontos de vista, criticar o que se lê nos jornais se torna cada dia mais fundamental.

 

*Estudante de Rádio, TV e Internet da Universidade Federal de Pernambuco e estagiária do Centro de Cultura Luiz Freire