Análises


O jornalismo, o mangue e o perigo da história única

Muita gente na Ilha de Deus ficou indignada com uma reportagem publicada no Diario de Pernambuco, semana passada. Intitulada “Moradores do mangue ainda vivem no tempo de Josué de Castro”, a matéria procura traçar um paralelo entre a obra de um dos maiores estudiosos da fome de nossa história e autor, entre outros, de “Homens e Caranguejos” e a vida em comunidades que tiram o sustento do mangue nos dias de hoje.

Com um texto que usa e muitas vezes abusa da emoção (a que, possivelmente, honestamente sentiu), o autor procura visibilizar o drama de algumas pessoas que vivem à beira da maré. Os desafios de terem muitas vezes vindo do interior, a falta de oportunidades de trabalho, a dureza do ofício da pesca, a deficiência dos sistemas público de saúde e educação. É difícil encontrar má intenção na vontade de se denunciar que existem pessoas na nossa cidade que vivem em condições de vida bastante aquém do que se precisaria.

A reportagem foi construída toda em cima de impressões do jornalista que, como informa, passou uma semana vivenciando o dia-a-dia de algumas comunidades ribeirinhas do Recife. O texto é construído através de recortes das histórias de vida de pessoas entrevistadas e daquilo que o autor viu, ouviu e viveu nos dias em que esteve apurando.  Em momento algum, recorre a indicadores de qualidade de vida, pontua políticas públicas presentes ou ausentes, analisa historicamente possíveis avanços ou retrocessos.

Em alguns momentos, a narrativa carrega nas tintas. Num momento, chama os moradores da Ilha de “sobreviventes do mangue”, como se o bioma, por si só, fosse um agente nocivo, insalubre – quando é rigorosamente o contrário. Quando diz que seus personagens matéria admitem que “pode faltar dinheiro para a comida”, a matéria se contradiz mais na frente, quando publica um pescador dizendo que “é só tirar bicho do mangue e comer”. Acolá, fala de uma personagem que perto do meio dia, ainda não tinha almoçado. Ora, independente de se ter ou não comida em casa, quem já almoça antes do meio dia? A informação empresta dramaticidade onde talvez nem exista.

É possível que não haja inverdades factuais no texto publicado pelo DP. O maior equívoco da reportagem, talvez o que tenha deixado os moradores da Ilha de Deus mais inconformados, é o papel de vítima que lhes é coletivamente conferido. Afinal de contas, não é assim que boa parte deles e delas se sentem. Não é vítima uma comunidade que, depois de muita luta, consegue a construção de um conjunto habitacional que trouxe melhores condições de moradia para centenas de famílias. Não são vítimas os jovens que, vez ou outra, se danam no mangue para colegar toneladas de latas e garrafas PET que insistem em encontrar lugar entre caranguejos e mariscos. Não são menos dignos, menos humanos ou menos protagonistas de suas próprias vidas aqueles que vivem da vida que vem da lama, dos crustáceos capturados ou criados em cativeiros, dos peixes cada vez menos pescados por conta da invasão do mercado imobiliário na região.

Ao caracterizar as comunidades ribeirinhas apenas como lugares parados no passado onde a população é vitimizada pela perversa natureza, a reportagem do Diario deixa-se equivocar por reproduzir o chamado ‘perigo da história única’, em que pessoas, grupos e localidades acabam sendo caracterizadas por apenas um aspecto de sua existência. A verdade  é que as comunidades (com razão) já não estão satisfeitas em serem retratadas apenas através do “olhar de fora” dos veículos de comunicação tradicional. Não querem mais precisar de porta-vozes das suas dores, mesmo os mais bem intencionados deles. Não é à toa que, na Ilha de Deus, já existem coletivos que produzem sua própria comunicação independente, como é o caso do Caranguejo Uçá. Mas que também não perdem a oportunidade de procurar incidir na mídia tradicional, por compreender que também têm o direito de serem retratados como desejam ser. Assim,  alguns moradores da Ilha têm tentado um diálogo com o DP durante esta semana, na esperança de que possam também posicionar-se sobre suas próprias histórias e ter suas próprias palavras publicadas no jornal. Tentativas que, até agora, infelizmente, foram em vão.