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Diario de Pernambuco faz “piquenique” com salários da redação

por Renato Feitosa *

Nesta sexta-feira (25), quem se deparou com o “mais antigo jornal em circulação da América Latina”, o Diario de Pernambuco, se surpreendeu. Em plena véspera de fim de semana, o noticiário apresentou uma edição que trazia pouco mais de 20 páginas, sendo quatro delas dedicadas aos classificados. Em meio ao buruçu político que tomou o país com a denúncia de tráfico de influência de Michel Temer, o título do editorial soava um tanto “esquizo”: “Reafirmando nosso compromisso com o leitor”, dizia. A seção dedicava-se um tipo de coisa quase indefinível que tentava “explicar” o que estava acontecendo… com o DP.

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Hoje nossos leitores recebem um jornal um pouco diferente do usual. Ele está um pouco menor e algumas seções tradicionais não aparecem. Entretanto, as notícias importantes do dia foram cuidadosamente reunidas para que nossos leitores fiquem bem informados.”

Apesar do que leva a crer o início do texto, o que se seguia – uma espécie de crônica bizarra, com provável inspiração em Lewis Carroll, comparando a edição a um piquenique (!?) memorável pelo seu excesso de carinho – fazia tudo, menos informar bem quem o lia a respeito do que acontecera com o jornal.

No dia anterior, a redação do Diario de Pernambuco decidiu paralisar suas atividades. Já as trabalhadoras e trabalhadores do seu parque gráfico uniram-se ao da Folha de Pernambuco e decretaram greve. O motivo? Salários atrasados e perdas salariais acumuladas por um período de mais de dois anos.

O editorial se limitou a explicar somente que “as dificuldades devem-se a uma paralisação deflagrada de improviso, sem pré-aviso, pelos sindicatos dos gráficos e dos jornalistas.” Omitiu, porém, que o Grupo R2 – que mantém o controle acionário do jornal – atrasava o pagamento da quinzena do salário de novembro desde o dia 20, sem qualquer “pré-aviso” ou “pós-satisfação” a quem dele dependia para pagar suas contas. Atitude reincidente, visto que o último salário “mensal” já sofrera atraso de alguns dias. No caso do seu parque gráfico, a afirmação do DP é completamente desmentida pelo sindicato da classe, já que uma notificação remetida ao Sejope – Sindicato das Empresas Editoras de Jornais de Pernambuco – no dia 10 deste mês informava que uma assembleia geral havia decidido pela decretação de greve a partir do dia 16.

De acordo com Geraldo Bringel, diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope), é possível que o caminho da greve também seja adotado pelas redações, pois a categoria está em campanha salarial e os empregadores têm ofertado uma proposta que não cobre a inflação acumulada do último ano. “Queremos um reajuste de 9,58% e eles deram uma contraproposta de 5%, apenas um a mais do que a feita anteriormente. Numa consulta a jornalistas que trabalham nos principais impressos do estado, a oferta foi rejeitada por maioria absoluta. Ainda há o agravante de que, no início da semana, o Tribunal Superior do Trabalho arquivou o dissidio do ano de 2015, que já havia sido aprovado no TRT, após recurso do sindicato patronal”, afirma. No caso do Diario de Pernambuco, soma-se ao contexto um receio de que o jornal repita a postura da Folha de Pernambuco, cujo atraso de salários e descaso com direitos trabalhistas já assumiu o patamar de tradição.

Mas a paralisação da redação do DP não envolveu apenas questões salariais. Também fez parte da pauta a precariedade nas condições de trabalho na nova sede da redação – para onde a mudança foi feita “nas carreiras”. “Há falta d’água e mau cheiro no prédio por problemas nos banheiros. Na nova localização (Recife Antigo) temos que almoçar em restaurantes mais caros e perdemos uma ajuda parcial que tínhamos no pagamento das refeições. Além disso, mudaram o plano de saúde, que aumentou de preço em 70%, e a participação dos empregadores no pagamento – que passou de setenta para trinta por cento. A quem não pode continuar com o plano, é ofertado migrar para outra operadora e, assim, ficar submetido a todos os prazos de carència”, descreve Osnaldo Moraes, da redação do DP e vice-diretor regional da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Na tarde desta sexta-feira, após manifestação que envolveu um “piquenique” em frente à sede do Diario de Pernambuco, jornalistas do veículo decidiram em assembleia retornar às atividades depois que o Grupo R2 se comprometeu a realizar o pagamento dos salários atrasados até a próxima terça-feira. Em relação às condições do prédio, houve a proposta da criação de um canal de comunicação para o encaminhamento de reclamações. “Porém, retiraram a proposta, apresentada anteriormente, de antecipar o reajuste de 6% conquistado em 2015 e afirmaram que a empresa só negociará a campanha salarial através dos sindicatos patronais. Também exigiram a volta ao expediente para que fosse encaminhado o pagamento das parcelas do décimo terceiro”, diz Osnaldo Moraes. No dia 29, uma assembleia decidirá os rumos da campanha salarial, incluindo a possível decretação de estado de greve.

Ademais, o problema das condições de trabalho nos jornais locais não se limita às questões já apresentadas. Além do acúmulo de funções e tarefas que os passaralhos dos últimos anos geram, um relato veiculado pelo Sinjope sobre a reação da direção da Folha de Pernambuco frente à passeata realizada por trabalhadoras e trabalhadores do Diario demonstra que o carinho que as empresas e suas chefias aplicam aos conteúdos das páginas de papel fino – durante a paralisação das redações – não se estende aos direitos que detêm as pessoas formidáveis que nelas despendem boa parte de suas vidas. E, a respeito disso, não haverá qualquer declaração de compromisso em um editorial:

Os jornalistas do Diario de Pernambuco realizaram ontem uma paralisação devido ao atraso de salários. Os companheiros do DP se dirigiram em passeata pacífica em direção aos prédios “vizinhos” da Folha de Pernambuco – empresa que atrasa salários, décimo-terceiro, férias e até mesmo não deposita o FGTS dos trabalhadores. No local, reivindicaram a participação dos colegas. Dentro da redação da FolhaPE, contudo, algo sinistro acontecia. A chefia de reportagem convocou reunião de emergência e proferiu aos demais editores, segundo relatos de quem estava presente: “quem descer sofrerá as consequências”. Em seguida, editores teriam repassado a ameaça adiante: “quem aderir será demitido”. No fim da tarde, mais uma ação de coação: “os repórteres estão sendo orientados a não descer nem para comer e estão dispensados do intervalo”. Do que podemos chamar essa ação?

Certamente, não de piquenique.

* cientista social e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire