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Encontro na Unicap debateu apoio da mídia e da igreja ao Golpe de 64

Há cinquenta anos, o Brasil sofria um dos piores golpes contra a democracia, o presidente João Goulart foi deposto e os militares tomaram o poder. Foi neste cenário que um vendedor de máquinas de escrever decidiu mudar de profissão, trocando o ramo comercial que também foi afetado pelo Golpe de 1964, pela profissão de jornalista. Domingos Meirelles começou a carreira no jornal carioca A Última Hora, em período de repressão aos meios de comunicação, que inicialmente colaboram para a ascensão do governo militar, porém após uma série de medidas que inviabilizaram os direitos individuais e de expressão, acabaram buscando medidas para derrubar os militares. Foi com este relato que Meirelles iniciou o 4º Encontro Anual da Imprensa Pernambucana organizado pela Associação de Imprensa de Pernambuco, em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), na última terça-feira (dia 26). O apresentador do Repórter Record Investigação também lembrou que A Última Hora foi um dos poucos jornais que não deram apoio aos ditadores, e por isso sofreu uma série de retaliações, inclusive o exílio de Samuel Wainer, fundador do periódico carioca.

Apesar das dificuldades, para Domingos os anos de chumbo foram um período de imenso aprendizado, pois os jornalistas tinham que ser imensamente criativos para continuar informando a população sem desagradar os opressores, era necessário criar estratégias narrativas, como o deslocamento das informações principais para um subtexto, e não no “lide” (costumeiro início de uma matéria jornalística), para não chamar a atenção dos censores.

No primeiro dia do evento também foi debatida a relação da igreja católica com o Regime Militar. De acordo com o professor da PUC Minas, Rodrigo Coppe Caldeira, algumas instituições religiosas, assim como uma grande parcela da mídia, contribuiu para a consolidação da Ditadura. A igreja católica termia que o comunismo crescesse no País, pois acreditava que isso afastaria a população da religião, já que via os comunistas como subversivos e ateus.

Domingos Meirelles encerrou o debate desfazendo o mito da imparcialidade, que mesmo nos dias de hoje ainda é reproduzido em alguns cursos de jornalismo. “Os profissionais da imprensa precisam escolher um lado, que pode ser o da vítima ou do algoz, eles devem interferir nos fatos, pois não podem ficar indiferentes aos acontecimentos”.