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Campanha é mote para discussão sobre imparcialidade jornalística

Desafiando a teoria da imparcialidade jornalística,  o jornal Folha de São Paulo tem deixado claros alguns posicionamentos editoriais na nova edição da campanha “O que a Folha pensa”.  Em nove vídeos, o periódico paulistando estabelece seu ponto de vista sobre questões polêmicas como cotas raciais (contra), casamento gay (a favor), legalização das drogas (a favor), aborto (a favor), política econômica brasileira (contra), pena de morte (contra), obrigatoriedade do voto (a favor), manifestações (a favor, mas contra a “violência”) e olimpíadas (a favor). Um deles, em que uma mulher negra apresenta-se, assim como o jornal, contra as cotas raciais, causou polêmica especialmente entre militantes dos movimentos étnico-raciais.

Esses temas já haviam sido abordados na mesma campanha no primeiro semestre. Na ocasião outros assuntos como saúde, Bolsa Família, cracolândia, educação, internet (caso Snowden e Marco Civil), cultura, segurança pública, MERCOSUL, Cuba, Israel-Palestina e mobilidade urbana também foram citados.

Apesar de se posicionar sobre diversas questões relevantes, a Folha afirma que também expõe opiniões divergentes da sua linha editorial. O próprio mote da campanha é “concordando ou não, siga a Folha, porque ela tem suas posições, mas sempre publica opiniões diferentes”. Dos nove vídeos institucionais que fazem parte da campanha, em quatro os personagens revelavam discordâncias de pensamento com a Folha.   Os ‘discordantes’, porém, não apresentam argumentos, ao contrário daqueles que aparecem concordando com o veículo.

A presidenta da Comissão de Ética do Sindicato de Jornalistas de Pernambuco (Sinjope) Andrea Trigueiro, e o professor de Comunicação e Política da Universidade Católica de Pernambuco Juliano Domingues analisaram a campanha.

OMBUDSPE:  Um jornal que expõe a sua opinião sobre temas relevantes para a sociedade, tem, de certa forma, uma cobertura jornalística mais limitada?
ANDREA TRIGUEIRO-  Não entendo que o que limita a cobertura é o fato de ele se posicionar abertamente. O posicionamento deixa o leitor ciente do que pensa o veículo. É saudável e bom pra democracia. O que pode vir a limitar a cobertura é a visão do jornalista. Isso também deve ser observado. A isenção do jornalista quanto aos preceitos que regem o bom jornalismo, qual seja, ouvir as partes interessadas no assunto.

OMBUDSPE:  A campanha “O que a Folha pensa” desfaz o mito da imparcialidade ou objetividade jornalística?
JULIANO DOMINGUES: A objetividade jornalística é um mito positivista, uma construção da qual o mercado publicitário se apropriou para seduzir determinada fatia do público consumidor de notícias. No mundo real, não se é imparcial, independentemente da área de atuação, seja no Jornalismo ou em qualquer outra. Apenas no mundo ideal, hipotético, é possível ser totalmente objetivo. Por outro lado, reconhecer essa limitação é o primeiro passo para procurar, racionalmente, esse horizonte da objetividade e, assim, atuar com honestidade jornalística, atendo-se aos fatos. Em democracias consolidadas, não são poucos os casos de veículos que manifestam sua posição. Entende-se que, ao fazer isso, adotam uma relação mais franca com seu leitor e reconhecem a existência de várias verdades sobre uma mesma realidade, e não a possibilidade de uma verdade absoluta, capaz de descredenciar as demais.

OMBUDSPE: Você acha que o posicionamento da Folha pode dificultar o trabalho dos seus jornalistas? Um líder religioso contrário a legalização do aborto pode não querer ser fonte de alguma matéria devido aos aspectos favoráveis do jornal a ser tema?
AT: Isso pode ocorrer sim – o que demonstra falta de amadurecimento em relação aos instrumentos midiáticos democráticos. Mas é um risco que se corre e uma postura que, no meu entender, precisa começar a ser adotada para que se quebre o tabu da imparcialidade jornalística.

OMBUDSPE: O posicionamento contra a política econômica atual do País, citando a necessidade de redução da carga tributária e dos gastos públicos, para incentivar o crescimento econômico pode influenciar na campanha eleitoral e favorecer a oposição?
JD: Em alguma medida, sim. Entretanto, certamente há opiniões discordantes desta também em circulação no chamado “mercado de ideias” que é, para alguns, a mídia. E posicionamentos explicitamente favoráveis à política econômica do governo divulgadas por veículos noticiosos também podem favorecer a situação. Por esse e outros motivos, espera-se pluralidade de pontos de vista em circulação, para que o consumidor dessas notícias possa, ao confrontá-las, decidir de modo mais informado sobre qual versão da realidade mais lhe agrada.

OMBUDSPE: Os pontos abordados na campanha do jornal refletem demandas do público?
AT: Sim. Embora ainda tenhamos outros temas que demandam posicionamento como, por exemplo, a liberdade e a intolerância religiosa, entre outros. Mas já é um bom ponto de partida.