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Ataque à comunicação pública é desmonte do “bem-estar social”, aponta pesquisador

Por Daniele Alves

No dia 18 de agosto, a Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe) promoveu o III Seminário Comunicação Legislativa e Cidadania, com o objetivo ampliar a discussão sobre o papel da Comunicação Legislativa com a sociedade civil. O evento discutiu o momento da radiodifusão pública no Brasil, a relação entre produção multimídia contemporânea e o “jornalismo do futuro” e pautou também a comunicação comunitária. Jornalistas e outros profissionais de comunicação foram convidados a compartilhar suas histórias e suas visões sobre o cenário atual da comunicação pública e o futuro do jornalismo.

Dentre as discussões propostas nas mesas, os desafios de trabalhar em TVs e rádios públicas, considerando a “dependência” de recursos do governo para garantir uma programação diferenciada, de qualidade e as dificuldades que são “criadas” pelo poder público, a “concorrência” com as mídias comerciais e a democratização da mídia foram os principais temas levantados pelos convidados.

O público presente, em sua maioria formado por assessores de deputados, jornalistas, professores e representantes de organizações sociais, aproveitou o debate para questionar modelos de transmissões de TVs e rádios, criticar os políticos de Pernambuco que não têm dado espaço para discutir a comunicação pública, além de debater o futuro da comunicação pública diante do ataque promovido pelo governo de Temer.

De acordo com alguns convidados, para se tornar atrativa a comunicação pública precisa falar o que as mídias tradicionais não falam, dar vez e voz a quem elas não dão e chegar aonde elas não chegam. Em síntese, apresentar para a população um conteúdo diferenciado e de qualidade.

No entanto, segundo o jornalista e escritor paulista Laurindo Lalo Leal Filho as mudanças que vêm ocorrendo na comunicação pública, principalmente na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) desde o golpe, como sucateamentos, demissões de profissionais e casos de censura explícita são desafios para alcançar uma comunicação pública fortalecida. Segundo o jornalista, o desmonte da EBC promovido pelo governo Temer, mexendo diretamente na programação ou no editorial da empresa, significa dizer que “o bem-estar social está sendo desmontado”.

A jornalista mineira Cláudia Lemos, representando a Câmara Federal e ABCPública, explicou que o principal desafio dos jornalistas que trabalham na Câmara Federal é a linguagem da TV Legislativa, que muitas vezes demonstra ser mais propaganda do governo do que informação pública. No caso da TV Câmara Federal, Cláudia Lemos disse que geralmente os conteúdos feitos pelos jornalistas se tornam embates com deputados, que costumam sugerir alguns formatos e ideias e ditar como eles deveriam trabalhar.

A mesa também teve a participação do jornalista Gustavo Almeida, indicado a presidente da Empresa Pernambucana de Comunicação (EPC), que representa a TV Pernambuco (TVPE), que trouxe o tema para o contexto pernambucano. O jornalista compartilhou algumas de suas propostas, apresentadas ao governador Paulo Câmara, para a TV Pernambuco – que não conseguiu finalizar a digitalização e está com a programação sendo transmitida pela canal da TV Alepe. Além do cenário parecido com as outras TVs públicas, como falta de estrutura, poucos recursos, quadro de funcionários enxuto, a EPC ainda possui outro grande problema: ainda não tem data para a posse do novo presidente e vice, além do conselho, representado por organizações sociais e sociedade civil.

“Produção multimídia contemporânea e o jornalismo do futuro” foi o tema da segunda mesa, a única que não teve relações com as alterações realizadas pelo atual cenário político brasileiro. Os convidados apresentaram seus pontos de vistas a partir das experiências que possuem em seus trabalhos. A jornalista do Sistema Jornal do Commercio, Maria Luiza Borges, e o jornalista Jacques Barcia, do Porto digital, destacaram para o futuro do jornalismo a possibilidade de aproveitar os recursos disponibilizados pela tecnologia e internet. Enquanto o jornalista e integrante do coletivo Jornalistas Livres, Rodrigo Pires, ressaltou a importância de ter profissionais de várias áreas, como sociólogos, psicólogos, economistas etc, trabalhando em conjunto para reportagens mais elaboradas.

A última mesa do evento, que discutiu o tema “Comunicação Comunitária e possibilidades de diálogo”, foi mais crítica em relação ao poder público e às mídias comerciais. Participaram a responsável pela Rádio Alternativa FM, localizada em Nazaré da Mata, Eliane Rodrigues, o jornalista Eduardo Amorim, representando o Coletivo Intervozes, a representante da organização Mulheres do Cabo, Manina Aguiar e o comunicador Edson Fly, do Caranguejo Uçá, partilhando a experiência diária de se trabalhar com poucos recursos: denunciaram censura de políticos e ressaltaram a necessidade de se preocupar com uma programação diversificada, que atenda aos interesses da população e não viole os direitos humanos.