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AQUI PE participa de primeira audiência, após instauração de inquérito civil público

Jorge Cavalcanti                                                                                                                                   Créditos: Jorge Cavalcanti

Por Daniele Alves

Na tarde da última sexta-feira (6), o jornal AQUI PE, representado pelo editor Rodolfo Bourbon, representantes de organizações dos direitos humanos e estudantes de comunicação estiveram na Promotoria da Justiça do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), localizada no bairro de Santo Amaro, no centro do Recife, para participar de uma audiência, promovida pelo promotor de justiça Maxwell Lucena Vignoli.

A ação do MPPE foi motivada pela nota de repúdio, assinada por dezenas de organizações da comunicação e de direitos humanos, que exigia uma retratação do jornal, após o veículo ter divulgado, no dia 1 de setembro de 2017, uma capa, que constava a imagem de uma mulher negra estirada no chão, com parte de sua genitália amostra. O AQUI PE foi denunciado por violações de direitos humanos.

Na audiência, os participantes apresentaram alguns exemplos de retratações, como medidas a serem tomadas pelo jornal, no qual ele se responsabiliza pelo seu ato. Entre elas: retratação na capa do jornal; publicação de uma série de reportagens sobre a garantia de direitos no meio impresso e nas redes sociais, com destaque para direitos da população negra e socioeconomicamente excluída; apoio na realização de um seminário sobre direito à comunicação, voltado especialmente para estudantes e estagiários; capacitação da equipe para que não ocorram mais episódios como esse e divulgação de campanha sobre direitos humanos nas redes sociais.

A presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas (Sinjope), Patrícia Paixão comentou sobre a importância do sindicato intervir quando ocorrem violações de direitos. A exigência pela retratação, segundo ela, é uma forma do jornal se responsabilizar pela publicação, assumindo seu erro, respeitando, assim, os direitos humanos, a memória de Diana, a ética jornalística e seu público.

Representando o Observatório de Mídia da UFPE, a jornalista e professora Ana Veloso, lembrou que não era a primeira vez que veículos de comunicação violavam os direitos humanos e descumpriam o Código de Ética dos Jornalistas. A jornalista do Centro de Cultura Luiz Freire, Débora Britto, ressaltou o frequente desrespeito do jornal em relação aos negros, publicações que só reforçam o estereótipo dessa parcela da sociedade que já sofre violência diariamente. Além disso, a jornalista destacou que mais do que apontar a responsabilidade de um profissional, é preciso discutir que sistema e lógica organizam o jornal para que violações como essas aconteçam.

Após escutar todos os depoimentos e as considerações dos participantes da audiência, o editor do AQUI PE, Rodolfo Bourbon contou que ao escolher a imagem para a capa, não percebeu que as partes íntimas da mulher estava amostra, pensaram que era um short, na verdade. Em relação a nudez, o editor comparou a imagem de Diana com a fotografia clássica da Guerra do Vietnã, em que duas crianças aparecem correndo nuas. Segundo Rodolfo, as críticas caíram em cima do AQUI PE mais pelo seu histórico – por se tratar de um jornal com linguagem popular – do que pela imagem em si. A fotografia, ainda de acordo com o editor, também seria uma forma de denunciar a violência.

Durante a audiência, também foram discutidos e apresentados, por parte das organizações, exemplos de retratações e reparações ao promotor Maxwell Lucena e ao editor do AQUI PE. Todas as sugestões reforçavam a necessidade de se discutir direitos humanos tanto dentro da redação quanto nas próximas veiculações do jornal.

Foi marcada uma nova audiência para o dia 23 de outubro, para se tomar conhecimento sobre a análise das sugestões de retratação, bem como o posicionamento do jornal em relação a elas.