Por Mariana Reis¹

Foto: Divulgação do Evento

Mas… como assim, comunicação de pretas e pretos? É possível se usar esse terminologia, já não bastasse a segmentação conceitual mídia independente, mídia livre, mídia alternativa, mídia comunitária, entre outras? Sim, é preciso se falar de mídia negra, entendendo-se as especificidades que essa comunicação pressupõe. Afinal de contas, não nos vemos nos meios de comunicação tradicional, fato comprovado pelas estatísticas. Negras e negros do País estão invisibilizados ou sub-representados em campanhas publicitárias, na TV aberta – como já apontava a pesquisa de doutoramento de Joel Zito Araújo, que resultou no imprescindível documentário A Negação do Brasil, em 2000 – e, também, na comunicação como campo profissional. Estudo da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) de 2012 aponta que apenas 5% dos jornalistas em atuação no Brasil – seja em veículos tradicionais, seja em assessoria de imprensa – se declaram negros (ante 19% de pardos) enquanto, no Censo do IBGE do mesmo ano, 51% dos brasileiros se autodeclararam pretos/pardos.

O que isso quer dizer? Pode significar que ainda não acessamos esse mercado de trabalho, mesmo com as políticas da última década como cotas, FIES e ProUni. Ou, pior, que ainda não nos reconhecemos como negras e negros nas redações e agências de noticias. Uma coisa é certa: uma vez que não ocupemos essas frentes, reconhecendo nosso lugar de fala, nossas pautas deixam de ganhar espaço. Precisamos, então, garantir tal representatividade. Aponto, a seguir, algumas possibilidades. Primeiro, a partir das políticas públicas – cotas de acesso ao nível superior, política de equidade racial nas empresas públicas e privadas, acesso a editais e fundos para produção independente nas rádios e TVs públicas. 

Depois, através da formação, garantindo que as temáticas da cultura afrobrasileira e das relações étnico-raciais possam ganhar a sala de aula na graduação, como transversalidade nas disciplinas dos anos iniciais – filosofia, ciências sociais, sociologia da comunicação, artes – e também nas cadeiras específicas, mais técnicas, garantindo a pluralidade de vozes e a diversidade de discursos para os trabalhos finais das disciplinas e para os trabalhos de conclusão de curso. Se fizermos um mapeamento, quantas monografias, documentários, séries radiofônicas ou de reportagens (para restringir à nossa área de atuação, o campo da comunicação) são produzidas com essa temática? Os professores das escolas de comunicação sentem-se à vontade para orientar trabalhos com esse percurso? Aliás, quantos professores negras e negros temos na graduação da Comunicação Social do País – e na pós-graduação? É preciso problematizar a questão sempre que possível, pois é papel da escola tecer pensamento crítico. 

Além disso, no mercado midiático tradicional, trazer economistas, médicos, pesquisadores negras e negros como fontes de entrevistas e pautar temas correlatos não apenas na efemeridade das datas como Consciência Negra, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Abolição da Escravatura: ir além. Sabe-se que o jornalismo trabalha com o agendamento (por isso é válido pautar essas datas específicas), mas jornalismo principalmente é – ou deveria ser – fugir do óbvio. Como não trazer para a cobertura de saúde, a questão da anemia falciforme, mais comumente associada ao povo negro? Por que não tratar no tema de Economia/Mercado a escassez de produtos de beleza para essa população e mesmo a falta de bonecas com que crianças negras se identifiquem? É um tema do capital, do consumo, mas fala das subjetividades ligadas à raça e etnia.

Outra provocação: é preciso formar para a abordagem das pautas do povo negro. Se por ora, a maioria dos comunicadores e comunicadoras da mídia tradicional não são – ou não se reconhecem – negros e/ou não estão sensíveis para tais temáticas, como sensibilizá-los para uma abordagem mais humanista? Para tanto servem os guias, cartilhas, materiais informativos em direitos humanos, visitas às redações, workshops. Material útil nesse sentido é a publicação, disponível para download gratuito na web, do Guia para Jornalistas sobre Gênero, Raça e Etnia lançado pela ONU Mulheres e FENAJ, em 2011. 

Em 2016, o International Journalist’s Network  (IJNet) vem realizando palestras em faculdades norte-americanas para discutir a cobertura de pautas sobre racismo e injúria racial, no esteio de movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que denunciam o assassinato de jovens negros por violência policial. Iniciativa emergente num Brasil que vive a mesma realidade, embora dissimulada pelo mito da democracia racial.

Por fim, mas não menos importante, é necessário inventar nossos próprios espaços de criação no campo comunicacional. Diante disso, a Internet se mostra território fértil para a pluralidade e diversidade de discursos, para as nossas contranarrativas. Nesse sentido, iniciativas como Afroguerrilha, Alma Preta, Mundo Negro, Correio Nagô, Blogueiras Negras são algumas alternativas de resistência já nascidas no mundo digital.

Em nível local, temos o exemplo do Coletivo Tururu, de incidência comunitária e que tem pautado, nos últimos meses, o debate sobre extermínio da juventude negra no estado de Pernambuco. Outro destaque é a Rádio Amnésia, que atua há 10 anos como rádio livre, na plataforma digital, ligada ao Ponto de Cultura Coco de Umbigada. Vencedora do Prêmio Mídia Livre, do Ministério da Cultura (MinC), em 2009, a iniciativa também participou do Lab Cultura Viva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), projeto de pesquisa e extensão em produção audiovisual. Ou seja, trata-se de um trabalho de comunicação de referência, reconhecido tanto pela academia e poder público quanto pelos seus pares das comunidades tradicionais e povos de terreiro.

Claro, as contradições existem e faz-se necessário apontá-las: uma delas é o fato de a Internet ainda não ser universalizada, seu acesso é escasso nas regiões mais remotas, nos rincões interioranos e  nas periferias, território onde habita a maioria do povo negro brasileiro – considerando-se aqui o recorte de raça e de classe. Assim, usar as ferramentas digitais para produção da mídia negra possibilita um maior potencial de produção e de escoamento e, evidentemente, um maior acesso ao que é produzido, mas isso por si só não é suficiente para comunicar aos diversos públicos. Por isso, a democratização da comunicação entra, mais uma vez, no cerne da discussão, somando-se às demais frentes de luta.

 

¹ Mariana Reis é jornalista, autora do livro-reportagem Dia de Negro e doutoranda em Comunicação pela UFPE. 

 *  Este texto é resultado da participação da autora no debate Comunicadoras Pretas, evento que integrou a I Semana de Comunicação Popular do Centro de Comunicação e Juventude (CCJ), realizado no Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), em Olinda, no dia 27 de outubro de 2016.

** Este artigo foi originalmente publicado na Revista Jornalismo e Cidadania, da UFPE.

 

 

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