É curioso observar como as coberturas de manifestações pela reivindicação de direitos se repetem na mídia imprensa pernambucana. E os jornais reafirmam  sua posição de fetichizar o trânsito, supervalorizando o congestionamento ocorrido em momento específico, por decorrência de passeata, em detrimento das razões que a provocaram. No caso, aqui, marcha dos agricultores integrantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura familiar (Fetraf -PE).

“Mais uma vez, trânsito refém de protestos”, diz a matéria, da página 2, do Caderno Vida Urbana, do Diário de Pernambuco de sábado, dia 14. O Jornal do Commercio afirma que “Agricultores param o Recife” e a Folha de Pernambuco “ Agricultores dão nó no trânsito”, ambos destinando aos textos espaço de meia página de seus cadernos:  Cidades e Grande Recife, respectivamente.

Enquanto o Diário abre espaço para falas significativas de representantes do movimento, mesmo que no final do matéria, a Folha concentra-se no trânsito a todo momento  (o que fez o Diário nos seus primeiros parágrafos). A Folha  mostra o depoimento de duas pessoas que não podem “perder a hora”, informa a pauta de reivindicações dos agricultores, mas não expõe a fala de nenhum deles. Em matéria vinculada informa sobre as reivindicações dos trabalhadores , numa tentativa de colocar o outro lado da notícia, mas os representantes dos movimentos continuam sem fala.

O JC segue a mesma matemática no quesito depoimentos que criticam a movimentação: dois. Mas, para tentar  imprimir à matéria certo equilíbrio, há duas falas de representante da Fetraf.

Em muitos momentos os textos do JC e Folha se assemelham bastante. Há parágrafos quase idênticos sobre motoristas que fizerem manobras ilegais para tentar fugir do congestionamento, o depoimento de representantes do governo, até mesmo a expressão ‘nó no transito’ foi utilizada pelas duas coberturas, além das já citadas  falas contra. Outro dado que concordam também é acerca do  número de participantes: dois mil. E, não se sabe de onde vem a contagem . Polícia militar? Assessoria do Movimento? Governo?  Já para o Diário, os participantes foram em número de  700. Também sem a fonte.

Tanto espaço para descrever as ruas, as avenidas, os  trechos congestionados pela marcha as manobras realizadas pelos motoristas e tão pouco espaço para refletir o porquê  as  manifestações acontecem. Por que será que elas acontecem e tornam a acontecer ?

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