Teve gente que se assustou quando, na semana passada, viu o título de uma matéria do Jornal do Commercio que tratava de uma manifestação da Organização e Luta dos Movimentos Populares de Pernambuco (OLMP) semana passada. “Sem-teto tumultuam o Centro” dizia a manchete, no mais puro exemplo de fetiche do trânsito que assola algumas empresas jornalísticas locais.

A OLMP coordenou, quarta-feira passada, uma manifestação em frente à Secretaria das Cidades (Secid), na Avenida Montevidéu, na Boa Vista. Famílias das comunidades Arco-Íris, em Peixinhos; Palha de Arroz, em Campo Grande; Vila da Manchete, em Paulista; Construindo Sonhos, nos Torrões; e Sítio Cipó, em Caruaru, foram à rua reivindicar políticas de habitação, visto a situação lamentável em que vivem, rodeados de lixo e esgoto.

O Jornal do Commercio, o Diario de Pernambuco e a Folha de Pernambuco, nos respectivos portais da internet, noticiaram a mobilização. O DP publicou a matéria no mesmo dia, à tarde. Já o JC e a Folha publicaram a notícia na quinta-feira.

No entanto, é na notícia publicada no JC que se percebe uma falta de sintonia entre o texto e o título da matéria. Mesmo com um conteúdo bem elaborado no corpo da reportagem, com destaque para questões relevantes, afirmar que a manifestação tumultuou o centro do Recife contribui para que a população se posicione contra o movimento sem-teto, com a justificativa de que sua mobilização causou algum tipo de transtorno na rotina da cidade.

Normalmente, numa redação, o/a repórter entrega o texto bruto ao editor/a. É este profissional, de confiança da direção do jornal, que tem a função de, além de adequar o material ao espaço, dar-lhe um título. No caso do JC, está muito claro que são diferentes as motivações de quem escreveu o texto e de quem deu-lhe um nome.

Serginaldo Santos, coordenador do Movimento de Luta pela Terra (MLT), fez uma comparação pertinente: “a passeata pró-Dilma fechou a Conde da Boa Vista, mas ninguém disse que houve tumulto na cidade”, afirma.

Poderíamos até interpretar que o “tumulto” assinalado pelo texto do JC possa ter-se referido a um pequeno confronto entre a PM e os manifestantes. Porém, no texto do DP, entendemos que se existiu algo do tipo, não foi causado pelas famílias que ali estavam. Serginaldo, que estava presente, conta que, com a chegada do Batalhão de Choque, houve um “empurra-empurra”, mas nenhum tipo de confronto.

A voz das famílias

O conteúdo das notícias dos três jornais privilegia as motivações daquele movimento e as reivindicações que sustentam a mobilização em frente à Secid. E isso é bem descrito. Notadamente, tanto o Jornal do Commercio como o Diario dão voz aos manifestantes e ilustram a precariedade da habitação e do entorno onde vivem. Há uma preocupação dos jornalistas em descrever a luta constante por uma moradia digna, exemplificando, na reportagem, a situação de algumas famílias.

As matérias da Folha e do JC ainda colocam foco na consequência da manifestação do movimento sem-teto para o trânsito da Boa Vista, questão não pontuada pelo DP.

Serginaldo ainda diz que, “quando há manifestação dos movimentos por moradia, parece ser constante os jornalistas usarem termos pejorativos, como tumulto, invasão”. Nesse sentido, Cláudio Braga, do Fórum Estadual de Reforma Urbana, acredita que ainda há uma lógica de criminalização dos movimentos por moradia nas redações, talvez por despreparo e pela falta de conhecimento do jornalista sobre os movimentos populares. Além disso, completa, “da parte do movimento, nós também pecamos, pois não promovemos encontros e oficinas para sensibilizar os profissionais de mídia e pautar nossas questões”, afirma.

O principal instrumento do jornalista é escorregadio. As palavras produzem sentido e constroem realidades. Que árdua tarefa é representar o dia a dia. Causar tumulto certamente não é o mesmo que realizar manifestação. Promover o diálogo entre os representantes dos movimentos e os profissionais de mídia, como acentuou Cláudio Braga, seria um encontro importante para o trabalho dos dois lados.

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