O discurso de Lula, no sábado (18/9), em comício realizado em Campinas, ao lado de sua candidata à presidência Dilma Roussef, voltou a insuflar os ânimos de alguns setores da imprensa. Reproduzindo, com diferentes edições, matéria da Agencia Estado, periódicos pernambucanos trouxeram os seguintes títulos: “Entidades repudiam fala de Lula” (Jornal do Commercio, em sua Capa Dois). De forma mais específica e sem embutir a coletividade, a Folha, em seu caderno  Política, coloca: “Presidente da OAB critica ataque de Lula à Imprensa”.

Fato é que, pela reprodução das falas do presidente, Lula não “atacou a imprensa”, mas criticou “alguns veículos de comunicação”, o que é diferente. A informação aparece no terceiro parágrafo do texto publicado no JC : “Outra vez nós vamos derrotar nossos adversários tucanos, vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político.” A Folha não reproduz o trecho. Contudo, a matéria do JC segue afirmando que Lula estaria irritado com recentes reportagens a respeito de irregularidades praticadas por integrantes do governo.

Liberdade de Imprensa X Liberdade de Empresa

Na discussão, a “liberdade de empresa”, mais uma vez, não escapou de ser confundida com “liberdade de imprensa” pelos periódicos. Para Jacson Segundo, integrante do coletivo Intervozes de Comunicação Social, “elas (as empresas de comunicação) têm o direito de manifestar suas opiniões sobre este e qualquer assunto, mas representam apenas uma pequena parcela dos comunicadores do país.” Jackson ressalta que na área, há milhões de pessoas produzindo informações, cotidianamente, com variadas posições sobre diversos assuntos. Entre eles radiodifusores comunitários, produtores de revistas e jornais alternativos, além de blogueiros, que também estão ligados a diversas entidades. Estas não foram ouvidas para dizerem o que pensam sobre a liberdade de imprensa no país.

Para Ivan Moraes Filho, do Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom), representa muito pouco a opinião de grupos como a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Rádio e televisão (Abert), ambas associações patronais que têm como objetivos principais zelar pelo interesse de suas associadas, todas empresas de jornalismo impresso ou radiodifusão. “Classificá-las como defensoras da liberdade de imprensa é desconhecer sua atuação política e desconsiderar outras entidades (sindicatos, ONGs e movimentos sociais) que lutam pela liberdade de expressão e de imprensa com muito mais afinco”.

O presidente criticou “alguns veículos” que agem como partido político, reconhecendo que parte da mídia vem fazendo o papel de oposição, já que os partidos não estão dando conta.  Ao dizer isso, Lula apenas reproduz um conceito que é generalizado e que inclusive já foi verbalizado pela presidente da ANJ Judith Brito.

Lula afirmou que iria derrotar os adversários políticos e que derrotará “alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos”. Mais à frente, diz que. “Quem vai censurar é o telespectador, o ouvinte, o leitor insatisfeitos com as coberturas”. O trecho pode ser encontrado no site Observatório da Imprensa, mas não nas falas reproduzidas pelos jornais pernambucanos.

Para quem discute a liberdade de expressão no país, a fala de Lula deixa a desejar. O presidente não menciona o nome de nenhum periódico que questiona. Em seu discurso de presidente/cabo eleitoral, deveria caber o (muito pouco) que fez para a promoção do direito à comunicação no país. Quais foram as ações desenvolvidas para que a população faça a tal avaliação crítica da mídia?

Ao mesmo tempo em que critica a mídia durante a campanha em seus últimos meses de governo, Lula também falhou em implementar políticas sólidas que poderiam democratizar os meios e garantir a todos/as o direito humano à comunicação – vide situação das rádios comunitárias (que permanecem sendo perseguidas).

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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