“A televisão da minha casa só passa conteúdo 100% local. São os vídeos que a gente mesmo produz”. A fala de Leodomiro Neto do grupo Grafiola, traduz bem o clima do Encontro de Mídia Alternativa, que foi realizado neste final de semana no bairro de Coqueiral, Zona Oeste do Recife. Jovens integrantes de diversos grupos de diferentes comunidades reuniram-se para trocar experiências sobre o trabalho de cada um e sobre a conjuntura da comunicação independente e popular.

Uma oficina de ‘mobile video’ chamou a atenção para as possibilidades de se produzir audiovisual com equipamento amador, como telefones móveis,  e integrou os participantes que ainda não se conheciam. “Veio gente com quem a gente só se comunicava através das redes sociais e estamos tendo a oportunidade de conhecer pessoalmente”, disse José Carbonel, que integra o grupo MangueCrew, um dos anfitriões do encontro.

Durante os debates, ficou clara a necessidade de maior integração e ação em rede entre os grupos, de modo a aumentar não só as perspectivas do trabalho de cada um, mas a força do movimento como um todo. “Temos que nos comunicar mais, nos ver mais, trabalhar mais juntos. Por que é que tem um grupo que aprova muitos projetos? Porque só eles escrevem. E por que só um pequeno grupo é quem define as leis? Porque só eles que vão lá discutir e participar. A gente tem que se organizar pra poder interferir nessas paradas também”, resumiu Pixote, criador do Barraco Estúdio, do bairro da Várzea. “Eu acho que todo mundo tem o direito de ver o que quer na televisão, no rádio. De mudar de canal e poder ver, por exemplo, o trabalho legal que os grupos comunitários fazem, o que está sendo produzido de cultura nos nossos bairros. Não apenas o bangue bangue e o sangue que nos querem vender”.

Sustentabilidade econômica e formação também entraram na roda. “Este aqui é meu trabalho e o que  todos nós queremos é poder viver do que gostamos. Então é importante pensarmos nesse quesito também”, alertou Gabriel Muniz, que também ministra oficinas em três escolas municipais. Iane Mendes também quer seguir o mesmo caminho “Quando eu comecei a participar do curso de comunicação na escola Kabum!, eu nem sabia o que era audiovisual. Me interessei e vi que quero ir por aí, mas muita gente próxima a mim dizia sempre pra eu desistir, pra tentar emprego numa empresa de call center. Mas eu insisto e um encontro destes mostra que eu não estou sozinha”.

Após a discussão, foram exibidos vídeos produzidos durante a oficina e outros trabalhos trazidos por convidados. Também foi apresentado, pela primeira vez, o vídeo “Encontro de Mídia Alternativa”, que  conta um pouco do trabalho de diversos grupos de comunicação comunitária e contou com o apoio da ONG Fase.

Como encaminhamentos, ficou o indicativo de se fortalecer o diálogo entre os grupos para buscar alternativas de financiamento e possibilidades de exibição de conteúdos produzidos pelos coletivos. Já está pautada a participação em audiências públicas sobre o tema e a realização de reuniões itinerantes em outros bairros. “Nosso trabalho não é nem o da formiguinha, que trabalha o dia todo pra garantir sua própria comida. Nosso trabalho é o do passarinho, que acorda cedo, voa por todo lado e trampa cantando com alegria pra todo mundo se ligar na mensagem”, filosofou Carbonel, creditando a parábola ao cacique Marquinhos Xukuru, do município de Pesqueira.

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