Aos poucos, por volta das 15h10 desta quinta-feira, os jornalistas do Sistema Jornal do Commercio desciam e ocupavam a calçada do edifício da TV Jornal, na Rua do Lima. Vestidos de preto – camisa, blusa ou detalhes -, levavam colado um adesivo, “Campanha em Defesa da Profissão do Jornalista”. Do outro lado da rua, o carro de som e os representantes do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (SinjoPE) desafiavam o sol e expunham a pauta de reivindicações desta que foi uma paralisação de 1h nas redações.

Representantes do SinjoPE expõem as propostas.

Em pouco mais de quarenta minutos, se revezaram ao microfone Osnaldo Moraes, jornalista do DP e representante regional da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj); Geraldo Bringel, Diretor-secretário do SinjoPE; Ana Cláudia Eloi,  Diretora-presidente do sindicato; e Veruska Lima, uma das suplentes da instituição. Além do representante dos trabalhadores de gráfica de Pernambuco. Os jornalistas do JC, notadamente da redação do impresso, não se pronunciaram no microfone, mas acompanharam atentos o que o sindicato lhes trazia.

O mesmo movimento havia acontecido uma hora antes, às 14h, em frente ao prédio da redação do Diario de Pernambuco. E, como na Rua do Lima, os jornalistas do DP também aderiram à paralisação.

Em pauta

No último dia 8 de outubro, foi marcada uma audiência na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE/PE), juntamente com os donos dos veículos de comunicação, para serem discutidos o reajuste salarial – que não acontece desde 2008 –, perda histórica, participação em lucros e resultados e outros pontos do Acordo Coletivo do ano de 2010. Os patrões não estiveram presentes na audiência e já assinalam, de acordo com Cláudia Eloi, que não comparecerão à próxima, marcada para o dia 18 de outubro.

Ana Cláudia Eloi, presidente do SinjoPE

Segundo Cláudia Eloi, o impasse para negociação está em uma das cláusulas descritas no Acordo, referente à questão do diploma. Seu texto garante que apenas serão contratados para exercerem a função de jornalista em um veículo de comunicação aqueles que possuírem o diploma do curso de Jornalismo. Os patrões insistem que só haverá negociação para o reajuste salarial se está cláusula for suprimida.

No entanto, quando o SinjoPE conversou com os representantes das empresas, eles garantiram que não serão contratados para a função do jornalista aqueles que não possuírem o curso superior. Mesmo assim, o patronato exige que a cláusula que legitima esta questão não seja incluída no Acordo Coletivo de 2010.

Osnaldo Moraes acredita que esta posição dos patrões é conseqüência de uma pressão nacional, pois apenas os sindicatos de Pernambuco e do Paraná incluíram em seus Acordos esta cláusula relativa a contratação. “Se nosso Acordo for aprovado com este texto, isso quer dizer que outros sindicatos do Brasil também irão querer incluí-la”, argumenta.

Caso os donos das empresas, de fato, não compareçam à próxima audiência na SRTE/PE, o processo de negociação será mediado na instância seguinte, o Ministério Público do Trabalho. E, se ainda não houver resolução, todas as questões de reivindicação da classe serão encaminhadas para a Justiça do Trabalho, onde um pleno de juízes tomará a decisão final. “Nós estamos dispostos à negociação, fazendo o processo corretamente, de instância em instância”, afirma Osnaldo.

Mobilização

Há muito que a categoria não se mobilizava para demonstrar descontentamento diante de situações salariais e, mais especificamente, a favor do diploma. Curiosamente, a classe dos jornalistas costuma pautar e cobrir as greves de diferentes categorias de trabalhadores, mas possui uma enorme dificuldade de mobilização para suas próprias paralisações.

Jornalistas do JC durante paralisação de uma hora.

Osnaldo Moraes afirma que “historicamente, o jornalista se considerava um intelectual, e não um trabalhador; ele era movido pela paixão em escrever”, diz. Nesse sentido, o jornalista teria dificuldade de assumir-se enquanto pertencente a uma classe de trabalhadores, organizados em sindicato, que lutam por seus direitos frente ao patronato. Para Osnaldo, a mobilização desta quinta-feira foi importante, visto a pouca participação da categoria em protestos similares, “eles deixaram a redação por uma hora, isso foi muito bom”.

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