Por Rebecka Santos – estagiária de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire –  e Rosa Sampaio – jornalista do Centro de Cultura Luiz Freire.

No dia que antecedeu o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no STF, o editor e apresentador do Jornal Nacional, da TV Globo, William Bonner, encerrou a edição da última terça-feira (3), com “uma notícia de última hora”: leu, ao vivo, dois tuítes do general Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro, em que repudia a “impunidade” e diz que o Exército está “atento às suas missões institucionais”, em uma clara sinalização de intervenção caso o Supremo Tribunal Federal não negue o habeas corpus ao petista.

O tom de ameaça das mensagem aos ministros do STF foi pontuado e destacado pelo apresentador e editor do telejornal noturno, de âmbito nacional com maior audiência no Brasil.

“Nessa situação em que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? (…) Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, escreveu Villas Bôas nos dois tuítes lidos por Bonner.

Reprodução/Twitter

A Globo tentou amplificar as manifestações que ocorreram ao longo da terça-feira em prol da prisão de Lula e tiveram baixa adesão da população em todo o país. Com a falta de engajamento popular na defesa da prisão do ex-presidente, a emissora, a mesma que foi criada com o apoio da ditadura militar no período de 1964 a 1988, agora usa as Forças Armadas para ameaçar a democracia.

Outro militar, um  general da reserva do Exército também se pronunciou no mesmo sentido que Villas Bôas e garantiu que “se o STF permitir que Lula se eleja, haverá intervenção militar”.

Como o Jornal Nacional abordou o julgamento

Os 20 minutos iniciais do JN, desta mesma terça-feira (3), foram dedicados ao julgamento do pedido de habeas corpus do ex-presidente Lula, com um viés favorável à prisão do líder petista. A emissora fez um histórico de como o Supremo Tribunal Federal debateu, em outros casos, a questão do início do cumprimento de penas de condenados em segunda instância. Utilizando exemplos, a reportagem levanta o posicionamento dos ministros que compõem a bancada do Supremo.

Não por acaso, na abordagem, a emissora utiliza apenas falas dos ministros que são favoráveis a prisão na segunda instância, dando a direção de posicionamento ao telespectador. Alexandre de Moraes foi um dos que teve sua opinião ampliada nas telas do jornal. O ministro substituiu Teori Zavascki no STF, e em livros e na sua sabatina, argumentou que não é inconstitucional a prisão na segunda instância. “Não há uma determinação legal, mas também não há impeditivo.”

Já o Gilmar Mendes aparece em três momentos da reportagem. Foi citado num caso de 2009, no qual votou contra a prisão em segunda instância, mas foi sua posição na votação de um caso em 2016, em que o ministro votou a favor, que dois minutos foram dedicados ao seu discurso, afirmando: “não há nenhuma dúvida que a realidade mostra que nós precisamos levar em conta não só o aspecto normativo, que ao meu ver legitima a presunção de inocência (…) como também levar em conta a própria realidade, que permite que exigir o trânsito em julgado formal transforme o sistema em um sistema de impunidade”. Em seguida, a reportagem exibe a recente mudança de posição de Gilmar, na qual afirma que o Supremo precisa esclarecer a confusão sobre a jurisprudência estabelecida.

Rosa Weber também teve voz na edição. A reportagem exibiu sua votação contrária à prisão em um caso de outubro de 2016, alegando que “se a Constituição, no seu texto, vincula o princípio da presunção de inocência a uma condenação transitada em julgada, eu não vejo como possa chegar numa interpretação diversa”. Entretanto, desde então, a ministra analisou 58 pedidos de habeas corpus de réus condenados em segunda instância e 57 foram negados. Nesses casos, a ministra enfatizou o respeito ao entendimento do Supremo, mesmo sendo contrária às suas convicções pessoais.

Celso de Mello, o mais antigo do STF e um dos ministros que é contra a prisão em segunda instância, teve apenas cinco segundos de atenção na reportagem frisando que é em plenário que se afirmam convicções. Na sequência, a reportagem foca em um suíte revisando as razões da condenação de lula, do que aconteceu durante o processo e como funcionaria o julgamento no dia seguinte, além das possibilidades após os resultados.

Para finalizar a participação dos ministros, Bonner cita a carta enviada aos onze ministros pela Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, pedindo que seja mantida a decisão da prisão em segunda instância. Em sua fala na reunião do Conselho Superior do Ministério Público, Dodge afirma que executar uma sentença após quatro instâncias judiciais é um exagero que “aniquila o sistema de Justiça” porque “uma Justiça que tarda é uma Justiça que falha”.

Passado entrelaçado com golpes:

Os laços entre a emissora Globo de Televisão – e também do seu fundador, o jornalista Roberto Marinho – e a ditadura civil militar de 64 estão diretamente ligados com os benefícios rendidos ao grupo e a família Marinho ao longo do período de chumbo no país. O apoio ao regime e a censura aos movimentos pró democracia nos noticiários do canal eram explícitos.

Em 1984, a emissora fez uma cobertura omissa do movimento das Diretas Já. O canal novamente foi alvo de críticas, no final da década de 80, quando promoveu a edição do último debate entre os candidatos a presidente nas Eleições de 1989, que favoreceu o então candidato eleito Fernando Collor de Melo.

No final da década de 1990, as Organizações Globo enfrentaram diversos problemas financeiros que teriam sido aliviados pelo Estado, apesar de se tratar de uma empresa privada, com concessões públicas. Durante o período, a empresa utilizou-se da influência entre congressistas para conseguir mudar um artigo da Constituição Federal para permitir a participação de 30% de capital estrangeiro nas empresas de mídia brasileiras.

Em 2002, o Governo Federal ofereceu ajuda de R$ 280 milhões à Globo através de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A emissora voltou novamente a ser alvo de críticas pela cobertura supostamente tendenciosa das eleições de 2006 e 2010.

Eleição de 2012

Nas eleições municipais de 2012, não faltaram críticas à forma como a Rede Globo fez a cobertura do julgamento do Mensalão. Às vésperas do segundo turno das eleições municipais, o Jornal Nacional dedicou 18 dos seus 32 minutos de duração para abordar o julgamento, tendo ainda como agravante o fato da matéria ter ido ao ar imediatamente após o fim do horário eleitoral, que, em São Paulo, foi encerrado com o programa de Fernando Haddad, candidato do PT. Prática que a emissora manteve durante todo o segundo turno.

Manifestações de 2013 e impeachment de Dilma

Durante a série de manifestações populares que ocorreram em várias cidades brasileiras em 2013, protestos em frente às sedes da emissora aconteceram por todo o país. A sede da empresa em São Paulo teve estrume lançado sobre a sua fachada, além dos muros terem sido pichados. No protesto na sede da emissora no Rio de Janeiro, houve repressão policial aos manifestantes.

Em comentário feito no dia 12 de junho, o jornalista Arnaldo Jabor, no Jornal da Globo, afirmou que a grande maioria dos manifestantes seria composta por jovens de classe média e que a manifestação seria decorrente de ignorância política e do estímulo dos protestos na Turquia. No dia 17, em sua sessão na Rádio CBN, se desculpou por suas declarações, afirmando que temia que a energia fosse gasta com uma reivindicação boba, mas que viu que o problema era muito maior.

Em diversos momentos chave da conjuntura recente, a Globo, ainda que de forma não declarada, atuou diretamente na construção da narrativa que culminou na queda de Dilma.

De 2013 e 2016, a emissora mobilizou as pessoas em torno de um discurso único da “crise” no Brasil e de vazamentos das investigações. A principal cadeia televisiva do país foi alvo de uma reportagem da Al Jazeeraque estabelece analogias entre a atuação da empresa de comunicação no Golpe Militar e o atual processo.

O impeachment da ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, ocorrido em 2016 resultou de um golpe fomentado pela elite oligárquica e conservadora contra o Partido dos Trabalhadores, que estava no poder desde 2002, no qual a imprensa de direita brasileira desempenhou um papel determinante ao manipular a opinião pública, além dos políticos que votaram contra Dilma.

E destaca-se o envolvimento das Organizações Globo que, utilizando-se de seus veículos de comunicação, como o jornal O Globoe o Jornal Nacional, demonizou e deslegitimou de maneira sistemática a então presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT em suas reportagens e editoriais ao seletivamente associá-los à corrupção disseminada e culpá-los pela séria recessão econômica.

Relembre alguns casos nos quais sua cobertura foi desproporcional:

1) Manifestações

Nos primeiros protestos de rua promovidos por grupos de direita favoráveis ao impeachment, a Rede Globo fez inserções durante sua programação habitual divulgando as datas e locais das manifestações.

O mesmo tempo e esforço não foram dedicados às manifestações contrárias, realizadas em épocas próximas.

2) Casas de praia

O caso do tríplex no Guarujá, no qual se tenta envolver a figura do ex-presidente Lula – que, segundo o relatório da Polícia Federal, jamais foi proprietário do imóvel – ganhou grande destaque no noticiário global.

A revelação de uma mansão ligada à família Marinho, proprietária da Globo, construída de forma irregular em Paraty, por motivos óbvios, jamais foi mencionada.

3) Condução coercitiva

No dia em que o ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente, apesar de jamais ter se negado a cooperar com a Justiça, o fato foi reportado pelo Jornal Nacional em matéria de grande duração.

Proporcionalmente, entretanto, o espaço concedido aos defensores do petistas foi muito menor ao dedicado aos acusadores.

4) Áudios vazados

A desproporcionalidade também se manifestou no tratamento dado a dois casos de vazamento de áudios. A conversa entre Lula e Dilma – vazada, segundo o STF, de forma ilegal – foi divulgada no Jornal Nacional em sua quase integralidade.

Os áudios de Sérgio Machado, gravações de conversas deste com políticos ligados à gestão Temer, entretanto, não ganharam o mesmo destaque no programa.

5) Processo

Toda a votação do impeachment ocorrida na Câmara, responsável pelo afastamento provisório de Dilma, foi transmitido pela Globo. A veiculação dos discursos dos deputados – em sua maioria fundamentados em “Deus” ou na “família” – geraram um efeito negativo.

Por outro lado, no momento em que Dilma fez sua fala de defesa no Senado, momento de extrema importância para seu julgamento, o canal transmitia uma receita culinária.

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