Através do seu documentário “O Mercado de Notícias”, o cineasta portoalegrense provoca o público a refletir sobre a trajetória do jornalismo, desde a sua criação até hoje em dia sob a ótica crítica do escritor inglês Ben Jonson.  Relatos do cotidiano de 13 importantes profissionais brasileiros da imprensa intercalam-se com uma apresentação  teatral do texto homônimo, também discorrendo sobre o futuro dessa atividade. Furtado já colheu bons frutos com seu filme. O longa arrematou dois prêmios na edição do Cine PE deste ano, melhor documentário e prêmio do júri popular do Festival. O realizador conversou com o OmbudsPE sobre o jornalismo brasileiro apresentado em sua obra, quando participou de um debate promovido pela campanha Palavras têm Poder, semana passada, no Recife.

OMBUDSPE: A Folha de São Paulo corrigiu, dez anos depois, uma informação sobre a polêmica da réplica de um quadro de Pablo Picasso do prédio do INSS de Brasília. O que você achou dessa questão?
JORGE FURTADO: Achei ótimo. O filme já valeu para alguma coisa, dez anos depois ‘um erramos’. Mas enfim, aquela é uma das histórias do filme, um caso exemplar de um erro jornalístico, aparentemente sem graves conseqüências. Mas é muito emblemático porque ele contém na sua gênese vários defeitos que o jornalismo pode apresentar. Ele parte primeiro de um preconceito, que eu acho o maior de todos os pecados sempre, para a filosofia, para as ciências e para o jornalismo também. É o cara que sai com uma ideia pré concebida e não se deixa mudar, não importa o que aconteça, a manchete já ta pronta. Então havia um preconceito na matéria. Um preconceito contra o governo que estava recém assumindo. O governo Lula estava começando e tinha uma ideia meio esnobe: veja essa gente não sabe lidar com arte. É uma gênese de uma má notícia. Então é um caso, mas há muitos outros, que são mais graves. Veja o caso da Escola Base, que eu cito no filme. E se fosse falar de outros mais recentes, não do jornalismo, mas sim, das redes sociais, nós tivemos um caso de um linchamento, uma mulher que foi assassinada por causa de um boato no Facebook. Gente que publica qualquer coisa sem checar e aquilo acaba provocando inclusive a morte de uma pessoa. Enfim, o “erramos” da Folha é um bom sinal. Não há vergonha nenhuma em errar, todo mundo em qualquer profissão comente erros. O que você tem que fazer, se é um bom profissional, é dizer: errei e corrigi.

OMBUDSPE: Como deve ser feito o bom  jornalismo?
JF: Acho que tem alguns critérios muito básicos. Ele tem que se despir de preconceitos. Ele não pode sair em busca do fato, em busca da realidade, já definindo o que vai acontecer, e sair só para procurar aspas ou alguma coisa que confirme a manchete que ele tem na cabeça. Esse é o primeiro critério. É ter disponibilidade e honestidade intelectual para mudar de ideia. Um dos exemplos que eu cito no filme é o de Euclides da Cunha, em Os Sertões. Ele saiu de São Paulo para cobrir a Guerra de Canudos pelo jornal Estado de São Paulo (A Província de São Paulo). E se tinha uma ideia em São Paulo e no Rio de que a Guerra de Canudos era um movimento restaurador da monarquia comandado à distância. E ele chegou à conclusão indo lá, se confrontando com a realidade, de que não era nada disso. Ele muda de ideia durante o livro. E por isso Os Sertões é o maior livro da não ficção brasileira. É tão emocionante de ver e tão incrível, porque tu vê a mudança, a transformação que ele sofre durante o processo. Esse é o critério, não ter preconceito. A cobertura da imprensa em alguns momentos se deixa levar por interesses econômicos. Furar o outro, dar a notícia antes do outro. Estão mais preocupados em garantir a audiência e dar a notícia antes, do que dar a notícia melhor. Então é melhor tu esperar quando há um fato concreto. Em vez de dar o fato antes, espera um pouco, mas confirma. Tenha cem por cento de certeza daquilo que você está informando. A informação tem um impacto muito grande na vida das pessoas. A palavra é muito poderosa, as palavras têm o poder. É real. Uma frase, uma informação pode ser muito poderosa e com conseqüências econômicas e políticas. Às vezes trágicas.

OMBUDSPE-  O que você acha do Marco Regulatório da Comunicação?
JF: Essa questão é bastante complexa. O Marco Regulatório que se tem proposto não inclui a imprensa escrita, qualquer um pode escrever o jornal que quiser. O Marco Regulatório tem a ver com a TV, a internet, o rádio, que são concessões públicas. No caso das TVs abertas, o máximo que um local pode ter são 7 (em VHF). Não cabe mais, vai do 2 ao 13. O governo tem que regulamentar esse espaço. As leis que existem são do tempo de 1950, 1960 quando não existia internet, cabo, satélite, não havia nada disso, então elas estão muito atrasadas. Há uma forte resistência de quem tem a concessão de não querer mudanças, mas essas empresas podem ser atropeladas pelas grandes redes estrangeiras. Tem que ser regulamentado, não adianta fica resistindo. A lei muda quando a tecnologia muda. Eu sou totalmente contra qualquer tipo de censura ou qualquer coisa que proíba antes da publicação. Não pode falar sobre isso, é proibido falar disso, qualquer coisa que impossibilite alguém de se expressar, sou totalmente contra. Tu não pode proibir que as coisas sejam ditas, agora tem uma regulamentação de horário, por exemplo. Não pode botar filme com cenas de sexo explícito as 15h na TV aberta. Por que alguém quer noticiar a morte de alguém em vinte minutos antes do outro? Não é por um critério jornalístico ético, é por dinheiro, porque o cara quer ter mais audiência, por isso você anuncia antes. Por que alguém quer  construir vinte torres de quarenta metros na beira da praia, é por dinheiro. É o que move as empresas, inclusive as empresas de comunicação e as construtoras, é grana. Como você se protege da ganância de quem só visa o lucro? Tem que ter uma regulamentação social que diga: você não vai construir isso, porque fere o meu direito de olhar a praia, de ver o mar, a sombra, o espaço público.

Entrevista: Patrícia Gameiro
Foto: George Gonzaga/MPPE

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