Não há quem tenha participado de alguma atividade em prol do direito à comunicação em Pernambuco que não tenha sequer ouvido falar da Rádio Frei Caneca. Ligada à Prefeitura do Recife, a idéia teve seu embrião na necessidade de criar um veículo de comunicação pública no Recife. Isso há… 50 anos! O projeto original da rádio data de 1960 (de acordo com lei de autoria do então vereador Liberato Costa Júnior). Foi apenas no início desta década, porém, que o poder executivo começou a declarar seu interesse de fazer a emissora realmente entrar no ar. E foi quando deparou-se com um outro problema. A falta de espaço no espectro eletromagnético e  a demora do Ministério das Comunicações para autorizar a concessão. Apenas em outubro do ano passado a rádio recebeu sua outorga para funcionar.

Com a chegada de 2010, a pendência é outra: a ampliação do alcance do espectro.  Enquanto isso, a população continua sem saber o dia em que poderá sintonizar  o dial da emissora.

De acordo com a diretora de Rádio da Prefeitura do Recife, Dulce Melo, a estrutura física da Frei Caneca  está praticamente terminada e a demora para o funcionamento se deve a uma pendência:  o reduzido alcance do espectro de rádio–freqüência. “A outorga  foi autorizada  pelo Ministério das Comunicações com algumas  restrições  no alcance. Assim, se a rádio começasse a funcionar hoje, bairros da região oeste e centro oeste do Recife,  como Dois Irmãos, Caxangá, Imbiribeira não conseguiriam sintonizar a faixa”, explica.

Dulce explica que  o projeto de estruturação da rádio passou por várias fases entre estudos técnicos e de viabilidade. Foi montada um comissão para a instalação da rádio, em 2005,  feita a contratação de empresa para viabilizar o espectro da freqüência 101,5 – dial da emissora; obtida a autorização da aeronáutica para instalar o transmissor, e por fim, terminada reforma para adequação do estúdio, que irá funcionar no sexto andar do edifício Guararapes ( Avenida Dantas Barreto, 498 / esquina com Rua Nova, bairro de Santo Antônio).

Enquanto a rádio não chega, artistas de pernambuco continuam ‘sofrendo’ para emplacar seus trabalhos nas rádios ‘locais’, muitas delas arrendadas a redes nacionais. “Aguardo com muita expectativa a  Frei Caneca, porque acreditamos que será diferente das rádios comerciais, ou mesmo de emissoras educativas, onde aparecemos em entrevistas ou programas especiais temáticos, mas não na grade do dia musical”, afirma o músico Rafa da Rabeca.

Rabequista e vocalista da banda Forró de Cana, Rafa diz que, nas emissoras comerciais, há uma grande dificuldade para obtenção de espaço. O músico reclama que as FMs preferem continuar apostando em velhas fórmulas, caindo numa espécie de  círculo vicioso. “Estas rádios não abrem espaço para o novo, ou para algo diferente daquilo que estão acostumados a reproduzir. Só passam programação do eixo Rio-São Paulo e músicas de fora. Como não têm certeza se vende o que ainda não conhecem, preferem repetir estruturas já viciadas e acabam fechando as portas pra muita gente”

Ana Veloso, professora de Radiojornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, acredita que a  Frei Caneca precisa ter uma boa estruturação.  A tarefa se daria a longo prazo e vislumbraria desde a avaliação da forma de contratação de profissionais, até a montagem da programação. Para Ana,  é preciso investir em instâncias de debate abertas à  participação social. “Numa rádio pública é importante a implementação de conselhos de programação para que a sociedade possa apresentar suas propostas, onde haja a participação dos movimentos sociais, produtores independentes, produtores culturais e as universidades,  e desde já nos colocamos à disposição para este diálogo”, declara.

Pela prefeitura, porém, Dulce avisa que não poderá  definir a data de instalação da Frei Caneca. Contudo, reafirma o interesse do poder municipal,  em convidar representantes da sociedade civil para discutir as possibilidades oferecidas pelo veículo e os seus conteúdos, que deverão ser norteados por diretrizes da educação, já que a emissora é “pública”, de “caráter educativo”. Resta , agora, o aguarde do convite, enquanto a ampliação do sinal não vem.

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