Jornais pernambucanos têm dificuldades para noticiar fatos relativos à luta por direitos humanos e as ações dos movimentos sociais. Falta aprofundamento, carecem de maior diversidade de fontes e mesmo de conteúdos. Essas são algumas das conclusões da pesquisa “Jornalismo e Movimentos Sociais”, apresentada neste dia 28 de maio, durante o I Encontro Mídia e Democracia promovido pelo Núcleo de Estudos Comunicação e Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco.

Um dos responsáveis pelo trabalho, o jornalista Rafael Marroquim analisou 543 textos de 180 edições dos três maiores jornais do estado durante seis meses entre 2010 e 2011. Foram utilizados indicadores como o número de matérias, a quantidade de versões, o aprofundamento e a relação dos temas relativos a direitos humanos com os movimentos sociais que protagonizam a busca por sua garantia. Ao final da pesquisa, foram atribuídos índices (de 0,0 a 1,0) que avaliam a qualidade da relação do veículo com os direitos. O Jornal do Commercio foi o que obteve a pior pontuação, com o,48, seguido pela Folha de Pernambuco (0,50) e pelo Diario de Pernambuco (0,54).

“Em geral, todos os veículos tiveram uma pontuação fraca. No JC, por exemplo, 46% das matérias que analisamos trazia uma fonte única, o que elimina um dos preceitos mais importantes do jornalismo que é ouvir os dois lados”, afirma o pesquisador. Outro ponto que chamou a atenção de Marroquim foi a falta de associação entre os direitos humanos e as entidades que trabalham esse tema. “No DP, 66% dos textos não evidenciava essa relação. Na Folha, o índice sobe para 86%”.

Presentes ao encontro, jornalistas, representantes de movimentos sociais, do governo, do poder judiário e do Ministério Público puderam debater os resultados do estudo. “Os dados que vemos são muito importantes e seria muito bom que as mais altas instâncias dos jornais pudessem ter acesso a eles”, comentou o repórter Eduardo Machado, do JC. “Realmente não é fácil trabalhar questões relativas a movimentos sociais. Existe, por exemplo, uma antipatia muito grande das redações a respeito dos protestos que param o trânsito. Mas também há exemplos positivos de entidades que conseguiram inserir-se mais positivamente a partir de um diálogo direto com profissionais mais sensíveis”, avaliou Marcionila Teixeira, do DP. Repórter da Globo, Bianca Carvalho ressaltou que muitas vezes os veículos acabam reproduzindo um preconceito que é da própria sociedade. “Esta semana fiz uma pauta sobre comidas de terreiros e recebi um monte de ligações reclamando, pessoas que não respeita as religiões de matriz afro”. Bianca lembrou a matéria em que uma profissional baiana debochava de um acusado de estupro e afirmou ser a favor de mecanismos de controle social para coibir esses abusos. “Alguma regra tem que ter”.

Para Raquel Lasalvia, do Centro de Cultura Luiz Freire, os resultados da pesquisa traduzem em números o trabalho que o CCLF vem fazendo desde 2007 com o OmbudsPE. “Por isso insistimos tanto na necessidade de que haja disciplinas sobre mídia no ensino médio, por exemplo”, ressaltou a jornalista que aproveitou para informar que já está disponível, em formato online, o Manual Prático (muito prático mesmo) de Leitura Crítica de Mídia. Outras demandas colocadas pela representante da sociedade civil foram a criação da Empresa Pernambuco de Comunicação (EPC) e a discussão do Marco Regulatório da comunicação no Brasil. “É preciso que haja alternativas para que todos os segmentos da população tenham a liberdade de expressão assegurada. Um novo conjunto de normas para o setor poderia dar conta disso”.

Coordenador do encontro e do NCDH, o professor Marco Mondaini elencou algumas sugestões que podem ser abraçadas pela academia. “Esse foi apenas o primeiro encontro. Nos próximos, será interessante chamar diretores de empresas, por exemplo. Construir oficinas sobre o tema para jornalistas e incorporar uma disciplina sobre direitos humanos no ciclo básico de comunicação também são boas ideias”.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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