DSC04403“Para que serve uma TV Pública?”. Esta foi a primeira pergunta que se tentou responder no primeiro encontro de uma série de três, programados pelo grupo de trabalho organizado para reformulação da TV Pernambuco, que deverá apresentar, até maio, diagnóstico sobre as possibilidades para a emissora. Mais de cem pessoas lotaram o auditório do Porto Digital, entre produtores culturais, artistas, músicos, representantes do mercado audiovisual e representantes da gestão pública.

Para responder a pergunta sobre a TV e discutir o papel de uma emissora pública, foram convidados o jornalista e co-autor de Sistemas Públicos de Comunicação no Mundo, Jonas Valente, do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e Indira Amaral, diretora Presidente da Fundação Aperipê. O órgão é gestor das emissoras Aperipê de TV e rádio em Sergipe. A mediação da mesa ficou por conta do apresentador e  articulador cultural  Roger de Renor, que recentemente assumiu o cargo de diretor-presidente da TV Pernambuco.

Jonas discutiu algumas idéias que se foram arraigando sobre  sistema  público. Falou de estruturas participativas de funcionamento,  como os conselhos, e fez um breve panorama de alguns bons exemplos no campo Comunicação pública em outros países.  Indira partilhou algumas experiências desenvolvidas pela TV Aperipê e falou da relação da emissora com o entorno e com a Empresa Brasil de Comunicação ( EBC).

De acordo com Valente, uma TV pública serviria para um determinado conjunto da população “se conhecer e se reconhecer”. Muitas vezes, porém, a televisão pública é encarada como preenchedora de lacuna da TV comercial, faria apenas aquilo que a outra  não faz como exibir  debates, programas educativos etc. “Tem que disputar politicamente e esteticamente com a TV comercial, mas deve ir além e  não reproduzir os modelos da televisão comercial, deve provocar o público e promover uma qualificação desta audiência”, afirma.

O jornalista salientou ainda que a televisão pública não deve ser vista como marginal, nem de segunda categoria, e para isso, é preciso haja um modelo de financiamento. Para Indira,  que  também é diretora da Associação das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec),  mudanças na TV Aperipê  foram implementadas graças ao investimento feito na TV pelo governo do estado. “Começamos como um orçamento de 7 milhões em 2007, passamos pra nove e antes da crise, chagamos a contar com 13 milhões. Na época pegamos a TV num momento bem difícil de mudança de sinal analógico pra o digital e muitos desafios”.

Questionada por integrantes da platéia se ela teria um retorno em termos de audiência dos invetimentos feitos na TV , Indira respondeu que houve uma acréscimo na audiência, principalmente quando começaram a transmitir jogos do campeonato de futebol local. Afirmou ainda que a iniciativa foi importante para divulgar a grade de programas da emissora, mas não daria para aferir a audiência usando a mesma lógica da emissora comercial. “Precisamos compreender que a metodologia do Ibope não nos serve e que, embora estejamos disputando a audiência, este índice, no caso de uma emissora pública, não deve ser determinado nem determinante pela quantidade de investimento realizado”.

A radialista também foi perguntada sobre como trabalhava na programação a diversidade étnica e cultural  do estado. Respondeu que exibia especiais que abordavam  a religiosidade de matriz africana e que a TV estava sempre aberta a novos programas.

Sustentabilidade e participação

Jonas Valente salientou a importância da participação social, que poderia se dar inclusive na formação de conselhos temáticos com incidência na programação. Para o jornalista  além de assegurar autonomia  no sentido da sustentabilidade é importante que haja mecanismos de participação social efetiva com regras definidas até para funcionamento do um  telejornal, por exemplo, o que também implica em autonomia da emissora.

Para Roger de Renor, a TV precisa “pegar em todos os sentidos”. Ter alcance de sinal, bons equipamentos e uma equipe fixa de trabalho. O novo presidente do Detelpe mostrou também acreditar na qualidade da produção independente do estado que não tem espaços de veiculação.

Ponto de preocupação tanto de Roger quanto do grupo de trabalho montado para a reformulação da emissora, foi o quesito sustentabilidade. “Além de estrutura é preciso pensar num modelo de financiamento, a forma de gestão para que a emissora não fique refém do governo da ocasião nem do mercado”, opinou Jonas.

Entre outras propostas, a I Conferência Nacional de Comunicação – Confecom aprovou uma diretriz  que visa  garantir  fundos fixos de investimento em comunicação como política de estado.“Defendemos  a  criação de fundos nacionais e estaduais para comunicação pública cujos recursos viriam da verba da publicidade institucional ou da venda de aparelhos de TV , pois a gente sabe que comunicação, principalmente fazer televisão, é uma atividade cara”.

Luciana Santos, titular da Secretaria de Ciência de Meio Ambiente , a qual a TV está vinculada,  avaliou no evento,  que a democratização dos meios para por políticas amplas, não só estaduais, mas, mostrou-se otimista quanto a abertura da TV Pernambuco, pois acredita que o canal pode contribuir para difusão da diversidade cultural no estado.  “ Quando falamos em democratização da comunicação sabemos que o caminhoé  árduo, mas é preciso começar  e estamos começando aqui com a nossa rapadura.”

O próximo encontro para a discussão da TV Pernambuco será realizado no dia 13 de abril, às 14h30, no mesmo auditório do Porto Digital, na rua do Apolo, Recife Antigo.

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