Por: Ivan Moraes Filho

Ah, moço, pode deixar que eu faço a reportagem.  Sou jornalista profissional, fiz faculdade, aprendi a ser imparcial, transparente e objetivo. A evitar o uso de adjetivos e a começar o texto dizendo quem-quando-onde-como-e-porque.

Vou cair em campo, ouvir os envolvidos, coletar documentos.

Uma coisa dessas não pode ficar escondida da população, que tem todo o direito de saber o que esses homens fizeram e deixaram de fazer.

Deixa comigo que eu vou dar conta do recado.

E vou publicar sua tão grave denúncia na capa da edição de domingo.

Talvez ganhe até uns premiozinhos, mas é o que menos importa. O que vale é poder informar a população. Quem sabe motive alguma investigação? Um absurdo desses não pode ficar impune.

Isso, naturalmente, se o que eu descobrir não for desagradar nenhum anunciante importante do jornal.

Ou se for chatear o dono da empresa de alguma forma. Ou algum parente, amigo ou agregado dele.

Por que você sabe como é, né? Não posso arriscar meu emprego que paga o aluguel e o colégio das crianças.

Mas minha função eu faço bem. Apuro, escrevo e deixo o texto prontinho para o editor diagramar.

Isso, é claro, se nenhum prefeito, governador, deputado ou cupincha já tiver feito algum acordo com a direção do jornal.

Ou se algum juiz tiver dito que não pode citar o nome de algum envolvido. Ordem da justiça é pra cumprir.

Nessas coisas eu não me meto. Depois de um tempo a gente vai acostumando. Jornalismo é assim mesmo.

Qualquer coisa a gente pode jogar no online.

Tenho certeza que vai bombar no Facebook.

 

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