Por Ivan Moraes Filho – Jornalista e editor do OmbudsPE

Há dois meses, um menino pernambucano de oito anos desapareceu de casa, dando início a uma grande comoção não só na comunidade onde vive, mas em todo o estado. Para ajudar na procura, sua foto foi amplamente divulgada nos meios de comunicação e o grande alarde possivelmente contribuiu para o processo que resultou em sua volta para a casa, há cerca de duas semanas.

Pouco ainda se sabe (pelo menos oficialmente) sobre seu paradeiro nos dias em que esteve fora de casa. Acredita-se que tenha sido sequestrado, mas as investigações ainda não foram concluídas.

Se, enquanto o garoto esteve ausente, a ampla divulgação de sua imagem foi de inegável importância, o mesmo não mais se explica estando o menino de volta à sua casa. Mal retornou ao Recife, a criança teve voltados para si os holofotes de toda a imprensa pernambucana.

Celebridade instantânea, foi convidado de honra em treino de futebol do Sport e até recebeu convite para assistir a uma partida num dos lugares mais nobres do estádio do seu clube preferido. Ao preço de ser acompanhado durante toda a partida por pelo menos duas câmeras de tevê devidamente instruídas a captar cada movimento do menino enquanto a bola rolava.

Duas perguntas inocentes: o que ganha a sociedade ao ser informada sobre cada passo do garoto em sua volta ao lar? O que ganha o menino e sua família com toda essa exposição?

Outras, talvez um pouco menos inocente: não deveríamos focar nossos esforços na resolução do inquérito? Será que, para o garoto, não seria mais importante ser deixado em paz, aos cuidados da família e de profissionais de psicologia e assistência social num momento como estes?

A celebrização do pequeno rubro-negro tem causado  constrangimento inclusive por parte de vários colegas da imprensa. Não foram poucos os relatos que tenho recebido de profissionais descontentes com a cobertura que tem sido feita. “Vergonha” é uma palavra que tem aparecido em diversas dessas conversas.

Muitos – muitos mesmo – têm sugerido matérias mais sóbrias, focando principalmente o andamento das investigações. Percebem que não há interesse público real em debruçar-se sobre o dia-a-dia do retornado garoto. Percebem que, aos oito anos de idade, tendo sofrido por mais de 40 dias uma ausência forçada do seio da família, o menino realmente não tem nada a ganhar com essa exposição toda.

Nos mais altos andares das redações, porém, é claro que a a dimensão de ‘espetáculo’ é vista bom bons olhos. As lágrimas nos olhos da família rendem bons ‘close ups’, ajudam a vender jornal e a aumentar a audiência da tevê.

E mais uma vez pôde se ver o que é que realmente interessa às empresas da velha mídia.

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