A coluna “Graça e Paz”, publicada no Diario de Pernambuco, dedica-se a temas religiosos. Quer dizer, a temas cristãos, visto que não costumam aparecer por lá notícias ou comentários em relação a eventos e atividades de denominações religiosas de matriz africana, por exemplo, ou mesmo budistas ou hindus.

Passou desapercebida ao Ombuds PE a do último dia 15 de maio. O texto, assinado por Ângelo Manassés, não se trata de uma reportagem ou matéria. É, como diversas outras, uma coluna de opinião. Isso quer dizer que possui um certo grau de independência perante a linha editorial do jornal. Uma carta (mais ou menos) branca para expor aquilo que acha ou deixa de achar sobre determinados assuntos.

Pois o colunista, tanto no comentário quanto em notas, utiliza o espaço para destilar sua homofobia e, utilizando-se de argumentos falaciosos e desinformados, desancar o projeto de lei que criminaliza a homofobia, ora tramitando no Congresso Nacional.

Se o Ombuds PE cochilou, o mesmo não aconteceu com a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRPASO) e o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB). Em texto assinado por Benedito Medrado e intitulado “Defesa de direitos humanos não são “simples opiniões”‘, as entidades se posicionam com bons argumentos que deveriam também ganhar as páginas do Diario de Pernambuco – quem sabe na mesma coluna “Graça e Paz”? Segue o texto em sua íntegra:

“A Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRPASO) e o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB) vêm a público posicionar-se criticamente em relação ao texto publicado do jornal Diário de Pernambuco, dia 15 de maio, na coluna “Graça & Paz” por Angelo Manasses, intitulada “Heterofobia”.

Consideramos absurdas declarações como as expressas neste texto, que buscam sustentar a homofobia como uma “simples opinião” e como se combater e criminalizar posturas homofóbicas significasse cercear a liberdade de expressão dos seus autores. Muito menos, sustenta-se sua tese de que caracterizar a homofobia como crime é, na verdade, impedir religiosos de criticar relacionamentos homoafetivos. A leitura enviesada revela uma absurda distorção e profundo desconhecimento do colunista em relação à realidade da população não-heterossexual, marcada por graves violência em diversos espaços públicos e privados, da vida em sociedade.

Baseados em sua tese, poderiam ser aceitos como apenas expressando uma “simples opinião”: alguém (religioso ou não) que defendesse o extermínio de determinadas populações (judeus ou indígenas, por exemplo), ou alguém que discriminasse pessoas por seu pertencimento racial, ou ainda que defendesse a extinção da pobreza exterminando os pobres.

Em sua posição, o senhor revela total desconhecimento de estudos científicos e de estatísticas de violência homofóbica em nosso país. V.Sa. se refere a uma espécie de discriminação às avessas, quando ousa comparar a homofobia com uma espécie de “heterofobia”. Desconhece que a homofobia vem sendo sustentada por leis que não reconhecem e impedem a livre união entre pessoas do mesmo sexo; desconhece meios de comunicação que, em linhas gerais, inscrevem a homossexualidade no campo do humor e ridicularizam-na, e demonstra não ter o mínimo conhecimento de vários outros dispositivos dessa sociedade que insistem em não reconhecer plenamente princípios fundamentais de ética e direitos humanos.

Não há oposição entre heterossexuais e homossexuais como vossos escritos buscam mostrar, mas há sim oposição entre os que insistem em não reconhecer setores da sociedade que são violentamente discriminados esquivando-se do diálogo, e os que desejam que as diferentes maneiras de viver sejam respeitadas.

Atitudes como a de V.Sa. devem ser lamentadas ao mesmo tempo que repudiadas.”

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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