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Quem faz a cidade parar?

As advogadas e os advogados do Centro Popular de Direitos Humanos vêm a público mostrar sua indignação frente à matéria da Folha de Pernambuco que nesta quarta-feira, nove de abril, dedicou a capa e três páginas da sua edição à violenta criminalização dos movimentos sociais e irresponsável acusação contra legítima liderança do Comércio Informal do Recife, Severino Alves, que através de sua militância, ao lado de companheiras e companheiros, tem contribuído para reafirmar as manifestações como verdadeiros instrumentos de luta por direitos, garantia do Estado Democrático.

Ao atacar o presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Comércio Informal, atribuindo-lhe responsabilidade por estruturais problemas de mobilidade da cidade, o editorial da Folha o acusa, interroga e sentencia, sem lhe dar direito a defesa, desrespeitando a inteligência de seus leitores. Esquece o folhetim que seu público conhece muito bem os reais motivos que faz a cidade parar. São ônibus e metrô superlotados diariamente, o que lota ainda mais as ruas e avenidas de carros, pois os trabalhadores precisam chegar a seus destinos. É a falta de um transporte público de qualidade a verdadeira ameaça ao direito de ir e vir. Direito de todos, e dever do poder público. Este mesmo poder público que parece deslocar o seu efetivo policial para evitar qualquer diálogo com a população. Uma polícia que na noite de ontem adentrou um ônibus na Praça do Diário e agrediu uma mulher com uma criança a seu colo. Ao povo não é dada voz. De que forma este se fará ouvir?

João Braga, Secretário de Mobilidade e Controle Urbano da Prefeitura do Recife, afirma que legítimo instrumento de exercício da democracia participativa, manifestar-se, é caso de polícia. Repete prática antiga de perseguição aos ambulantes. É este secretário, ao contrário do que afirma a matéria, que dribla processo eleitoral que levou Severino Alves à presidência do sindicato. Recusa o diálogo, e se afirma no direito de eleger quem é ou não trabalhador ambulante, passando por cima de histórias de vida e de luta de famílias, que só tem o comércio informal para sobreviver. Tenta passar por cima da organização sindical, e nos recorda a Ditadura, que com o uso da força fechava sindicatos, apontava e perseguia suas lideranças para enfraquecer o povo e ditar tudo aquilo que quisesse. Cinquenta anos após o golpe militar e uma constituinte no caminho, essas práticas não podem continuar.

O Centro Popular de Direitos Humanos esteve e estará nas ruas exercendo a advocacia popular ao lado deste e de muitos outros Severinos e Severinas. Abraçamos a luta dos trabalhadores do Comércio Informal, uma luta por justiça e dignidade. E chamamos a sociedade recifense, complexa, plural e diversa, a pensar e discutir a sua cidade. A Democracia só se efetiva com a participação popular, e é a gestão municipal que por primeiro deve abrir-se ao diálogo. À esta não cabe inventar um Recife para seu povo amar, mas sim ouvi-lo para saber como há de governar. Sexta-feira, onze de abril, mais uma vez nos uniremos às vozes da rua, que o Senhor Secretário João Braga não tem o direito de calar.

Apoiam esta nota: Centro de Cultura Luiz Freire – CCLF, Direitos Urbanos – DU, CENDHEC, Comitê Popular da Copa, Coletivo Quilombo, União dos Estudantes de Pernambuco – UEP, Coque (R)Existe, Movimento Zoada, AMECICLO, Coque Vive, Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque, Associação Cultural Esperança do Coque, FIP Praieira, Muda Direito, Najup, Frente de Luta Pelo Transporte Público.