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Não existe jornalismo na cobertura da Copa do Mundo: Nota de repúdio ao programa Profissão Repórter e à TV Globo

por Comitê Popular da Copa em Pernambuco.

Faltando 22 dias para o início da Copa do Mundo no Brasil, a principal emissora de televisão do país anunciou que seu mais independente programa de reportagens seria voltado a discutir os efeitos do Mundial de 2014 na população brasileira. O Profissão Repórter da última terça-feira (20 de maio), no entanto, repetiu todos os truques de edição, a maquiagem da informação e a ausência de contextualização dos casos que tem sido utilizados pelos principais veículos de comunicação “tradicionais” para despolitizar os protestos e maquiar os problemas causados pelas obras deste que é o maior evento da mídia mundial neste ano.

O programa Profissão Repórter teve o mérito de tornar público nacionalmente um problema como as desapropriações injustas na pequena comunidade do Loteamento São Francisco, em Camaragibe, a sete quilômetros da Arena Pernambuco. Porém, os próprios entrevistados que representaram o bairro se sentiram violados no seu direito à expressão por terem tido seus depoimentos cortados e sua história ter sido contada aos pedaços, sem a expressão total do drama que tem sido a busca pelos pagamentos de indenizações, das mais de 200 casas já destruídas e especialmente no contexto em que Judiciário, Parlamento, Defensoria Pública, Ministério Público e, até mesmo, a imprensa têm sido controlados pelo Executivo estadual.

Também é necessário se fazer o registro de que o programa descontextualiza falas de militantes e com isso cria uma injusta e proposital imagem de violência. Integrantes do Comitê Popular da Copa, o assistente social Rudrigo Rafael e a advogada Eugênia Lima chegaram a ser entrevistados pela reportagem da TV Globo e suas falas sequer foram ao ar. O jornalista Eduardo Amorim enviou diversos textos publicados na mídia tradicional e no seu blog pessoal, cujas informações também ignoradas. Pior tratamento teve a autora do vídeo Gol Contra, a integrante do Copa Favela, Andréa Luna. Ela chegou a ser entrevistada pelo programa em sua própria residência. Mas apenas foi ao ar, de forma totalmente isolada, um trecho de uma fala feita por Andréa durante reunião no Loteamento São Francisco, em que ela diz que se for preciso irá para as ruas queimar pneus. A quem interessa esse tipo de edição?

É preciso também esclarecer que os números utilizados pela TV Globo demostram a falta de interesse em fazer jornalismo e explicitam o interesse de maquiar uma realidade. Não é verdade que o Comitê Popular da Copa de Pernambuco utilize os números divulgados no Profissão Repórter. Como já foi explicitado até mesmo em veículos da mídia tradicional, em Pernambuco, o Governo do Estado e a Prefeitura do Recife assumem ter realizado, para as obras do Mundial, mais de 2.000 remoções. Nacionalmente, a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa estima em 250.000 o número de atingidos.

Esses expressivos números são escondidos e só aparece no programa a contagem de terrenos divulgada pela Procuradoria Geral do Estado, que maquia o fato de que algumas das famílias do Loteamento São Francisco terem construído seis, oito ou até dez casas nos seus terrenos. Portanto, o Comitê Popular da Copa estima em mais de 200 as famílias desapropriadas na comunidade para as obras de ampliação do Terminal Integrado de Camaragibe e do Ramal da Copa, ambas ainda bastante atrasadas.

A séria acusação feita pela TV Globo ao perito judicial Leonardo Collier Selva talvez seja o único ponto a se destacar como positivo do programa comandado pelo respeitado jornalista Caco Barcellos. Mas, afinal, é mais do que necessário investigar também porque apenas uma defensora pública foi destacada para atender todos os casos de remoções da Copa no Estado, as denúncias feitas por moradores de que os juízes do Fórum de Camaragibe receberam a visita do ex-governador, e atual candidato à Presidência da República, Eduardo Campos para pressioná-los a executar as remoções de imediato. E não podemos concordar com a posição do Ministério Público de Pernambuco que não tem dado assistência a essas famílias, sob a justificativa apenas de que se tratariam de casos individuais de direito à propriedade.

É preciso também destacar que outras questões ficaram de fora da pauta do Profissão Repórter e foram substituídas por quadros cômicos que mostram o primeiro jogo da Arena Corinthians e o aluguel de um apartamento nos arredores do Maracanã. Um exemplo é a falta de transparência nos gastos feitos para obras como a da Arena Pernambuco, cujo custo da obra tem sido divulgado provisoriamente como R$650 milhões pelo Governo do Estado, mas que soma três empréstimos de R$900 milhões, como é visto facilmente neste site de transparência.

Ali mesmo, ao lado do Loteamento São Francisco, ou na tradicional região da Cidade da Copa, conhecida como Pixete, em São Lourenço da Mata, também seria possível registrar situações graves de necessidade de atenção no combate à exploração sexual de jovens e adolescentes, que estão ainda mais vulneráveis com as grandes obras que vem sendo realizadas por todo o país no contexto deste megaevento.

A própria Região Metropolitana do Recife também seria um ótimo local para expor a instabilidade a que estão sendo submetidos os pequenos comerciantes, já que até hoje a Prefeitura do Recife ainda não confirmou a realização da Fifa Fan Fest e por isso deixa mais de 7.000 trabalhadores (segundo o Sintraci) sem saber se serão ou não deslocados dos seus locais de comércio, diante da aprovação de lei que torna território da entidade privada internacional uma área de dois quilômetros ao redor destas áreas que serão instaladas nas outras 11 sedes do Mundial e possivelmente também na capital pernambucana.

Diante dessa questão, para finalizar, seria preciso registrar que a equipe do Profissão Repórter esteve no Recife na última quinta-feira, quando cerca de 200 moradores do Loteamento São Francisco, estudantes, midiativistas, advogados e integrantes de movimentos sociais se reuniram em um ato pacífico que marcou o 15M em Pernambuco. Apesar de todo o esforço dos integrantes do coletivo para fazer um ato que não colocasse em risco a vida dos idosos, que formam a maior parte da comunidade removida, a TV Globo nem mesmo registrou o fato do protesto pacífico ter sido realizado durante a greve da Polícia Militar de Pernambuco, que criou um clima de caos em todo o Estado e gerou uma série de furtos a lojas em outras cidades da Região Metropolitana do Recife.

Quando se consegue fazer um ato de paz e mostrar que vidas estão sendo perdidas para as desapropriações, como foi demonstrado pelas sete cruzes fincadas no terreno do Loteamento São Francisco pela plataforma Copa Favela, a informação relevante é ignorada pelo maior veículo de comunicação do país? Mas no momento em que as mobilizações saem dos limites e ocorrem atos de violência por militantes, ou mesmo por pessoas infiltradas por forças políticas adversárias, a mídia aproveita para desmoralizar toda a construção coletiva de questionamento aos megaeventos e megaprojetos no Brasil.

Nessa ocasião, não só o programa da Globo como toda mídia local, perderam a oportunidade de fazer o registro de que o 15M tinha o objetivo explícito de exigir a construção de um conjunto habitacional no terreno das remoções, visto que Terminais Integrados são uma política de mobilidade bastante questionada pelos usuários do transporte público, que sofrem com as longas esperas para embarcar nos terminais e exigem a implantação do bilhete único. Cabe ainda o detalhe de que a licitação das obras de ampliação do Terminal Integrado de Camaragibe nem mesmo foi iniciada pelo Governo de Pernambuco.

Diante do exposto, é preciso repudiar toda a cobertura da mídia corporativa no Brasil, solicitar à TV Globo direito de resposta com o mesmo tempo e destaque concedidos ao Profissão Repórter e fazer um destaque em respeito aos midiativistas e aos poucos jornalistas que na mídia tradicional ainda tentam colocar em primeiro lugar a função social da profissão de jornalista, enquanto está evidenciado que, na cobertura da Copa do Mundo, o que manda é o poder do capital e os interesses dos grandes empreendedores e dos gestores municipais, estaduais, federais e da Fifa.

Leia também: “Por que a mídia não fala nas desapropriações da Copa em Pernambuco?”, entrevista com Eduardo Amorim do Mídia Capoeira