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“Capa da Folha de Pernambuco é desonesta”

Por: Pedro César Josephi*
A Capa da Folha de Pernambuco desta quarta-feira (09/04) tem uma clara linha editoral que pretende criminalizar os movimentos sociais e jogar as justas reivindicações dos vários segmentos da sociedade contra a própria sociedade. Conheço Biu desde a época em que iniciei no Movimento Estudantil, sempre foi uma grande referência para todos nós que entravamos no Muda Direito e no D.A de Direito da UNICAP, um companheiro íntegro, honesto e comprometido com a luta política. Capaz de abrir mão de sua vida, objetivos e sonhos pessoais para um sonho coletivo. Um valoroso camarada que não encontramos facilmente por aí.

A matéria da Folha tenta traçar “o perfil” do “homem” que está travando a cidade e o porquê de tanto “profissionalismo” nas manifestações. Bem, a presente peça jornalística pretende inverter a ordem das coisas. Importante lembrar que ninguém protesta porque gosta, mas sim quando há um esgotamento das vias institucionais para diálogo com o poder público (o que qualquer cidadão minimamente consciente sabe que não acontece nos Governos Eduardo Campos e Geraldo Júlio). É assim com os professores, ambulantes, estudantes, trabalhadores sem teto e sem terra, ou seja, se as manifestações estão ocorrendo a culpa é do Poder Público Municipal que costumeiramente sequer senta com os movimentos sociais. Nossa sociedade não é acostumada com democracia participativa, democracia é conflito, é tensão, todavia nossa sociedade ainda tem enraizado em si os conceitos de paz social e ordem pública reproduzidos em épocas ditatoriais. A reportagem da Folha de maneira leviana aproveita para surfar nessa onda de pensamento e não contribuir com o aperfeiçoamento do nosso modelo democrático associando o travamento do trânsito (algo rotineiro nas grandes cidades – basta um buraco na rua e as grandes vias param) às liberdades políticas de expressão e manifestação. Alega-se “direito de ir e vir”…ora cara pálida, nós que temos debatido a irracionalidade do modelo de expansão do Transporte Público Pernambucano aguardamos ansiosamente tanta revolta com o impedimento do direito de ir e vir diário de milhares de usuários dos terminais integrados, por exemplo. A linha editorial reforça e aprofunda o caráter individualista e egocêntrico da nossa já egoísta sociedade. Além disto se aproveita de declarações de Biu para realocá-las dentro da matéria de maneira descontextualizada e tentando passar a imagem de que há algo por trás de sua brava atuação militante. Uma vergonha e uma violação aos princípios éticos da própria profissão. Me parece mais uma reportagem comprada….não queria acreditar nisto, mas é o que podemos inferir desta linha editorial.

Outro ponto leviano da supracitada matéria é quanto a um suposto “profissionalismo” das manifestações políticas. Ora, a Polícia, o Estado, a Imprensa podem estudar e desenvolver estratégias de cobertura de uma manifestação ou até de uma repressão (como o caso desta matéria), mas aos movimentos sociais é negado o direito de idealizar os atos? Como assim? Os movimentos sociais tem todo direito de pensar, idealizar, traçar táticas e costurar ações que possam atingir seus objetivos. Nada mais é do que o exercício da inteligência. Talvez, não estejam acostumados em associar inteligência aos lutadores sociais, aos ambulantes, aos trabalhadores sem terra, sem teto, aos estudantes… a clara e sempre presente arrogância intelectual de que “uma casa e uma cesta básica” resolveriam o problema deste “povo”.

Pois não! Os ambulantes, organizados no SINTRACI, tem demonstrado uma grande capacidade de organização e unidade popular em volta de sua pauta, com uma agenda política bem definida e com a identificação clara de quem são seus inimigos. Isso é o que incomoda! Perceber que existe um setor da sociedade que pulsa, que grita, que tensiona e que exerce a democracia.

Por fim, reitero minha irrestrita solidariedade ao companheiro Biu, aos/as companheiros/as ambulantes, pois esta linha editoral tem como pano de fundo tentar neutralizar qualquer agrupamento social que ouse lutar e questionar os mandos e desmandos do Poder Público!

Vida longa aos/as mascates!
Vida longa aos/as ambulantes!
Vida longa aos/as que lutam e sonham!

*Pedro César Josephi, advogado e mestrando em Direitos Humanos da Universidade Católica de Pernambuco.