Na noite de quarta-feira, 17 de junho, o blogueiro Ed Soares quase foi executado nas proximidades de sua residência, na cidade de Barreiros (PE). Em seu blog, Ed veicula matérias que refletem um trabalho fiscalização do poder público local, denunciando precariedades nos serviços públicos ofertados à população e fazendo críticas constantes às ações da gestão do prefeito Carlos Avelar (PSB).

Segundo informações da assessoria de imprensa da Polícia Civil de Pernambuco, Ed foi ao encontro de três pessoas que o chamaram e o espancaram antes de atirarem contra ele. O blogueiro teve a veia femoral atingida, perdeu muito sangue e chegou a sofrer uma parada cardíaca enquanto era socorrido no Hospital Regional Jailton Messias. Ele foi transferido para a UTI do Hospital da Restauração, onde segue em recuperação. Seu quadro de saúde é considerado estável.

As publicações de Ed Soares em seu blog já haviam causado reações como perseguição, campanhas para desqualificá-lo e ameaças pela Internet. Uma postagem datada do final de março deste ano contém um relato de Ed sobre ligações telefônicas e mensagens SMS anônimas que perturbavam a ele e à sua família. O blogueiro, porém, não teria cedido ao clima ameaçador e continuou atuante. Recentemente, seu blog divulgava a falta de transporte escolar para crianças da zona rural de Barreiros, ao tempo em que questionava um leilão de automóveis pertencentes à prefeitura e chamava atenção para a crescente contratação de serviços de locação de carros pela administração municipal. Há informações de que, na semana anterior ao atentado, Ed Soares teria acompanhado assessores de deputados estaduais da oposição que preparavam a visita dos parlamentares às obras públicas inacabadas que deveriam recuperar os estragos causados pelas enchentes que devastaram os municípios Zona da Mata Sul pernambucana em 2010.

As circunstâncias do atentado à vida de Ed Soares apresentam evidências suficientes para que se considere que sua atividade de comunicador esteja relacionada à motivação do crime. Entre as manifestações de quem acompanha seu trabalho, repetiu-se uma palavra amedrontadora para quem conhece as fragilidades da democracia no interior do estado: pistolagem. “Hoje em dia, particularmente em Pernambuco, a blogosfera está cumprindo um papel que a imprensa tradicional não faz mais, que é divulgar os desmandos de políticos com o dinheiro público. Essa fiscalização não agrada seja lá quem se beneficie de relações patrimonialistas com o Estado. Há muitas evidências de pistolagem no que ocorreu com Ed Soares, uma coisa de ‘coronéis’. A blogosfera é a voz da sociedade e a tentativa de matá-lo foi uma forma de dar exemplo e calar a todos”, afirmou Noelia Brito, blogueira recifense que foi uma das principais vozes na difusão do atentado ao colega de Barreiros.

Em nota pública, a Associação dos Blogueiros do Estado de Pernambuco (AblogPE), da qual Ed Soares é membro, também divulgou o incidente e rechaçou “qualquer atitude revanchista, perseguidora, arbitrária e atentatória à vida sob aqueles que exercem suas atividades em pleno gozo dos direitos civis e faz da mídia digital uma paixão à vida”. Para a entidade, o caso merece acompanhamento de autoridades especiais para que se elucide os fatos e se obtenha uma resposta rápida contra um atentado que põe em risco o Estado Democrático de Direito. A AblogPE também afirmou que, juntamente com a família do blogueiro, procuraria o apoio da seção pernambucana da OAB para exigir do Estado o devido tratamento nas investigações.

Tal posição também é compartilhada por Noelia Brito. Ela, que é procuradora do município do Recife, considera que o caráter do crime e sua provável motivação política demandam investigação ainda mais minuciosa, com a articulação entre diversos órgãos estatais para que se assegure a independência, a punição de todos responsáveis e, até mesmo, a própria segurança dos agentes nela envolvidos. “Deveria ser designado um delegado especial, um promotor especial ou mesmo uma Força Tarefa para acompanhar o caso. Incidentes que sequer tiveram vítimas – como o do tiro que acertou a parede de uma sala vazia da Prefeitura do Recife fora do horário de expediente – já receberam tal tratamento das autoridades estaduais. Ver a mesma atitude sendo tomada com o caso de Ed Soares é o mínimo”, cobra a blogueira. Neste ano, o próprio Ministério Público demonstrou a necessidade de ações especiais exigidas pela realidade de violência do crime organizado na região. De acordo com uma portaria da Procuradoria Geral de Justiça de Pernambuco, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 25 de março, quinze promotores foram designados para atuar num processo em Barreiros, que envolveria investigações relativas a tráfico de drogas e corrupção de crianças e adolescentes.

Na tarde desta sexta-feira, um vídeo publicado na página do Facebook do Blog Ponto de Vista mostra Ed Soares em um leito de hospital. Apesar da aparência abatida, o blogueiro estava consciente e agradecia pessoas e entidades que se mobilizaram em seu apoio.

Até o fechamento da matéria, o OmbudsPE tentou entrar em contato com o delegado Flávio Sorolla, da delegacia de Barreiros, mas não obteve sucesso. A assessoria de imprensa do Ministério Público de Pernambuco também foi procurada. Após contato por telefone, a demanda foi repassada por e-mail, cuja resposta ainda é aguardada.

Jornais e TVs ignoram o atentado

Se a solidariedade a Ed Soares, a cobrança junto às autoridades e a preocupação com as liberdades de opinião e expressão dão o tom do discurso da blogosfera pernambucana, os veículos da imprensa tradicional se omitiram quase por completo. As edições impressas do Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio dos dias 18 e 19 de junho não noticiaram o caso ou sequer apresentaram uma nota nas suas colunas sobre o ocorrido. O mais próximo que chegaram foi noticiar, na edição de quinta-feira do DP, o adiamento do julgamento dos três policiais militares acusados pelo assassinato de Jota Cândido, radialista e vereador de Carpina. Mas nem o fato de se passarem já dez anos desde o crime, nem o “sumiço” dos registros das ligações telefônicas realizadas pelos réus – provas que poderiam ligá-los aos vinte tiros disparados na execução do comunicador – foram capazes de fazer o jornal ir além da nota de quase 80 palavras, colocada no canto da página A7.

A exceção sobre o atentado a Ed Soares, porém, fica por conta de uma única matéria publicada no site do JC. O texto omite o teor do trabalho de Ed em seu blog e, assim, não se tem qualquer referência que permita ao leitor conceber a possível motivação política do crime. A perspectiva de “crime comum” ainda é corroborada, na matéria, pelo destaque a um vídeo do deputado federal Daniel Coelho (PSDB), o qual exibe sua fala de um minuto feita no plenário da Câmara dos Deputados em que se apresenta o caso como consequência da criminalidade que assola a região.

Até mesmo os programas policialescos produzidos pelas emissoras locais, que fazem da violência sua razão de existência, demonstraram uma estranha apatia frente à tentativa de assassinato de Ed Soares. Nos trechos dos telejornais disponibilizados pela Internet, apenas no Bronca Pesada, apresentado por Joslei Cardinot, foi encontrada uma menção ao caso. O famoso apresentador, tão experiente em explorar crimes com potencial repercussão, dá a notícia com uma frieza atípica, sem mudar o tom da voz. Em cerca de vinte segundos, diz que o blogueiro sofreu um atentado em frente à sua casa e está no Hospital da Restauração. Não há matéria sobre o caso, somente a usual sonoplastia de tiros e sons de veículos em arrancada.

O comportamento dos veículos de comunicação citados não condiz com o tratamento que merece o fato. Sequer há demonstração do interesse das editorias em repercutir na opinião pública a ocorrência do atentado, ato que se apresenta como a quase consumação do extremo a que podem chegar as várias ameaças dirigidas a comunicadoras e comunicadores: a execução de pessoas para que não falem sobre o que devem, e têm o direito, de falar. Ed Soares difunde em seu blog as raras informações sobre os fatos sociais e políticos das cidades que estão fora, mas não tão distantes, dos grandes centros urbanos brasileiros. Algo que tende a se tornar cada vez mais escasso frente à incessante concentração da propriedade dos meios de comunicação do país em poucas e grandes empresas. Diante de uma violação tão grave de direitos, à expressão e à vida, a continuidade da omissão da grande mídia pernambucana frente ao caso só tende a apurar a impressão de hipocrisia nos seus discursos quando provocada a se pronunciar sobre direitos e democracia. A liberdade da imprensa pernambucana é, sim, limitada. Mas o é pelo próprio condicionamento que lhe impõem seus proprietários, comprometidos com os fatos que convêm aos seus interesses econômicos e políticos.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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