O comunicador David Moreno demorou um pouco para começar o debate sobre direito à comunicação que promovia nos novos estúdios da Rádio Comunitária Alternativa FM, em Engenho Maranguape.

Enquanto apresentava as convidadas, lembrava do esforço de se colocar uma rádio no ar. Das dificuldades que enfrentou nos três meses em que as transmissões foram interrompidas para que a emissora ganhasse uma antessala, um tratamento sonoro de melhor qualidade, uma nova pintura. Com dinheiro arrecadado aqui e ali e com o suor de gente como o pedreiro Luiz Carlos, que não ganhou nenhum monetário tostão pelo trabalho.

Do aquário onde controla a mesa de som, David via a turma chegando para acompanhar o grande momento de perto. Vinha o cantor Carlos Adriano, a garotada que aprende flauta na escola Nelson Ferreira, os MCs Paulinho, Pezão e Buiú. Os colegas de rádio Rubem Lira, Flávio Baresy, Marconi Resenha, o produtor Salada, o multiartista Noúr. Tantos outros e outras.

Todo mundo ansioso para novamente ter acesso ao microfone da rádio mais ouvida da localidade. Duas vezes, David respirou fundo e impediu as lágrimas de escorrerem sobre seu rosto. Na terceira, não segurou a emoção e chorou no ar. Acompanhado pelo companheiro Júnior Bezerra, que acompanhava tudo com câmera em punho, soltou uma vinheta que explicava os procedimentos para a aposentadoria. Chorou mais um pouco.

O “deslise” emotivo deixa clara a identidade da Alternativa.

Uma rádio sem ouvintes, mas com falantes. Uma mídia social pré-orkut que, há seis anos, opera sem as devidas garantias políticas e financeiras que caberiam ao estado brasileiro. Sem autorização formal do Ministério das Comunicações para funcionar, é legitimada pela força de uma comunidade que recusa-se a ficar calada.

Durante o domingo de reinauguração, não foram poucas as pessoas que prestigiaram a estação que ocupa (no melhor sentido da palavra) o canal 98.1 nas proximidades do Engenho. Artistas, estudantes e professores do bairro, representantes de entidades da sociedade civil, militantes de direitos humanos, representantes do poder público e até um simpático tenente-coronel da PM que aceitou o convite para falar de segurança pública – e voltou para casa com uma lista de sugestões para o policiamento da área.

Com ou sem a formalização da outorga, a Alternativa está mais viva do que nunca, com seus microfones abertos e uma vontade danada de agregar também um projeto de TV Comunitária. No que depender da força de vontade da turma de Engenho Maranguape, desconfio que não vai demorar muito.

Publicado originalmente em: http://www.bodega.blog.br/nareal/uma-radio-muito-da-rocheda/

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