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Um pequeno roteiro para ler a Veja (com coisas que só você pode responder)

por Renato Feitosa*

Nesta sexta-feira, 25/10, a Revista Veja publicou uma edição especial com vinte páginas das quais duas delas são destinadas à sua matéria de capa. A atitude da Editora Abril em lançar tal exemplar fora de seu calendário normal foi polêmica. Afinal, a revista sai sempre aos domingos e resolveu se adiantar justo na ocasião em que chegaria às prateleiras no dia da decisão do segundo turno das eleições presidenciais deste ano.

Houve muito ceticismo por parte do público, assim como acusações de manobra com a intenção de influenciar o processo eleitoral. Coisa que não seria apenas da parte da redação da publicação, mas de seus editores, dos proprietários do grupo empresarial que a detém e também de outros interessados com os quais, por ventura, se relacionem. Em resposta a isso tudo, a Veja declarou que cometeria uma falha maior se fizesse diferente, deixando que brasileiros e brasileiras fossem às urnas sem o conhecimento dos fatos relatados. Apesar de não ser inédito, o caso é grave. Tanto que fez Dilma Rousseff dedicar à questão parte considerável de seu último programa no guia eleitoral e, no início desta noite de sábado, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que a revista conceda em seu site espaço para resposta da candidata, que é alvo das supostas denúncias publicadas. Decisão esta da qual a Veja recorreu.

“Fatos” ou “supostas denuncias”? Independentemente de como você tenha recebido a reportagem, ou a capa da revista, gostaríamos de convidá-lx a fazer sua própria avaliação levando em conta algumas perguntas objetivas sobre o próprio material publicado.

Um detalhe importante, antes de iniciar, é saber que os depoimentos de Alberto Youssef estão sendo dados à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em sigilo de Justiça. Ou seja, em tese, nenhuma pessoa envolvida nas investigações deveria tornar públicas suas informações. Quem teve acesso aos depoimentos em tais órgãos estaria impedido de comentar o seu teor e até mesmo de confirmar ou negar qualquer detalhe em específico. Só que jornalistas são sagazes e, além disso, detêm o direito constitucional de manter o sigilo sobre quem é sua fonte. Apesar disso, continuam assumindo a responsabilidade de comprovar as informações divulgadas quando veiculam denúncias, tanto pela lei quanto pelo código de ética da profissão.

Vamos lá…

  1. Leu a reportagem?
  2. O motivo da matéria, segundo a própria revista, são revelações contidas num depoimento de Alberto Youssef. Você consegue distinguir quais são os trechos que citam diretamente falas de Youssef que a embasam? Quantos são? Como são apresentados?
  3. A revista esclarece de onde veio as informações? Procure trechos em que revela isso.
  4. A revista reproduziu trecho de algum documento ao qual teve acesso e fez “vazar”, como a imprensa costuma fazer nas ocasiões de denúncias?
  5. Como a revista demonstra a veracidade das declarações de Youssef que destaca em sua capa? Ela descreve apurações que teria feito a respeito dos fatos relatados?
  6. As acusações do doleiro são apresentadas no texto citando literalmente suas falas ou apenas com a narrativa desenvolvida pela própria redação da revista?
  7. A matéria é exclusivamente dedicada às supostas revelações? Qual é a proporção em que são tratadas outras informações da investigação que já vêm sendo veiculadas pela imprensa sobre o caso da Petrobrás em relação ao material inédito que provocou a edição especial da revista?
  8. A reportagem ouviu algum outro lado da história? E as pessoas acusadas? Relata em seu texto que procurou algumas delas para saber o que tinham a dizer sobre isso? Quais foram as respostas recebidas?
  9. Atente para o seguinte trecho:

 

vejalula

  • Após sua leitura inicial da matéria, teve relevância a observação sobre a falta da comprovação das afirmações sobre o conhecimento de Lula e Dilma sobre o esquema?
  • Você acha que o teor do texto e o tratamento que a revista deu à matéria são coerentes com tal observação?

Afinal, qual sua opinião sobre a matéria e a forma que foi publicada? Ela irá interferir no seu voto amanhã?

 

* Sociólogo e integrante do projeto de Direito à Comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire.