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Um passaralho incomoda muita gente… E o do Diario deveria incomodar você

por Renato Feitosa*

passaralho

Em 2014, interessada em fazer dinheiro em outros mercados, a maior operadora de planos de saúde do Norte e Nordeste brasileiros, o Grupo Hapvida, adquiriu a maioria das ações das tevês Ponta Negra (RN) e Alagoas através da empresa Canadá Investimentos. Já em janeiro deste ano, o mesmo grupo também comprou quase 60% da participação societária do Condomínio Acionário nas empresas dos Diários Associados do Nordeste. Com o pacote, assumiu o controle de três emissoras de TV, mais três rádios e a empresa de jornal impresso responsável pelas edições do Diario de Pernambuco e o AquiPE. O passo seguinte foi a criação da holding Sistema Opinião de Comunicações, que surgiu como a maior na área de comunicação do Nordeste, presente nos estados do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas.

Essa tão célere expansão, porém, não se tratava de um prenúncio de investimentos massivos nas empresas. Algo que até seria provável caso o Sistema Opinião ainda tivesse necessidade de se consolidar no mercado midiático com o crescimento delas. Mas, com tal porte inicial, a lógica segue rumo diferente…

Quando uma empresa adquire outra, o seu intento é, claro, maximizar ganhos, tornando o negócio mais lucrativo possível rapidamente, para que possa obter logo o retorno do valioso dinheiro ali investido. E ser rápido, neste aspecto, é assumir as planilhas, esquecendo os lucros e observando os custos sob orientação da pergunta: “Onde é mais fácil diminuí-los?” Dizem que, neste momento, a empresa está em “processo de reestruturação”.

Na imprensa, as publicações que recebem olhares de milhares de pessoas diariamente dão lucro quando o tanto ganho com a venda de espaço para anúncios publicitários nas páginas ou sites, somado àquilo que a venda de exemplares, classificados e assinaturas rendeu, é maior que o gasto para produzir o conteúdo veiculado, o que – por sinal – é o que faz o público ler o jornal. E como diminuir o custo disso? Bem, as planilhas sempre indicam que há uma despesa grande o suficiente para ser cortada: salários. Eis que chega, então, o momento de mais um passaralho.

Se o simpático nome traz a imagem de uma revoada de pássaros, tal cena só seria fiel à realidade se dirigida por Alfred Hitchcock. No caso, enquanto a Hapvida expandia seus negócios, trabalhadores e trabalhadoras do Diario de Pernambuco ouviam um coral de crianças e fumavam um cigarro ao lado do parquinho… Passaralho, no jargão jornalístico, são as demissões em massa nos veículos de comunicação.

No último dia 25, somente nas redações do Diario de Pernambuco e do AquiPE, o passaralho tirou o emprego de trinta pessoas. Outras áreas da empresa somaram mais cem demissões. De acordo com nota de repúdio à iniciativa da Hapvida publicada pelo Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (Sinjope) e pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), “a lista de demissão foi feita sem qualquer critério compreensível. Incluiu até integrantes da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, limou profissionais com mais de 30 anos de casa, deixou equipes sem chefias e atingiu gráficos e funcionários da administração, transportes, marketing, alimentação e recursos humanos, entre outros setores.” As entidades trabalhistas também se pronunciaram pela convocação imediata de uma reunião com as diretorias da Hapvida/Canadá Investimentos e o Ministério Público do Trabalho. A situação ainda pode ser revertida, mas para isso é indispensável a mobilização de jornalistas e também de outros setores da sociedade.

– E por que o passaralho me incomodaria?

Mesmo que você não se sensibilize com a difícil condição das 130 pessoas que foram demitidas, não sobram motivos para se incomodar com o tal passaralho. A “diminuição dos custos” com a produção de conteúdo a que nos referimos anteriormente não quer dizer necessariamente que ele também será reduzido em quantidade (o que afetaria diretamente as vendas) e, menos ainda, que não haverá consequências para a sua qualidade.

Primeiro, vamos imaginar um exemplo mais próximo ao cotidiano de quem não é familiarizadx com o contexto das redações. Suponhamos que a Hapvida adquirisse um novo hospital, concluísse que é necessário reestruturá-lo e enxugasse o quadro pessoal. O número de pacientes não diminuiria por conta disso. Pelo contrário, a rentabilidade do negócio aumenta a cada novo plano de saúde vendido. O que mudaria então? Com menos profissionais no atendimento, sobe o número de casos que cada profissional deve atender. As salas de espera e enfermarias concentrariam mais gente que precisa de atenção, gerando uma pressão que afeta o tempo das consultas e demais processos que exigem a permanência dos pacientes no hospital. Talvez isso impediria diagnósticos mais aprofundados e até mesmo exames poderiam ter restrições indicadas por exigir gastos que vão além do trabalho humano, sendo menos lucrativos do que uma “simples” consulta. E se, ao consultar suas planilhas, a empresa concluísse que os números compensariam a troca de médicos experientes, com salários equivalentes ao seu tempo de serviço, por profissionais que estão ainda no início de carreira… Será que tal cenário forneceria segurança para os pacientes sobre a manutenção da qualidade do serviço?

Todo mundo tem noção da importância do jornalismo para nossa sociedade. Afinal, o entendimento de fatos que ocorrem além do cotidiano dos indivíduos depende em muito dele. E, tal qual no atendimento médico, tais fatos precisam de uma “consulta” por parte dos jornalistas para que se produza informação com qualidade. Apurações das histórias, pesquisas, entrevistas e consulta a fontes variadas são coisas fundamentais para que notícias forneçam um melhor panorama dos acontecimentos aos leitores. Não por acaso, são coisas que exigem mais dedicação e tempo dos profissionais. Com menos gente para lidar com a mesma quantidade de trabalho, algo disso acaba sendo, invariavelmente, sacrificado. “Algo” que vai além das condições de trabalho de jornalistas sobrecarregados, diga-se de passagem.

O jornalismo é uma atividade essencialmente baseada no trabalho humano em si, impossível de ser simplesmente substituída por ferramentas tecnológicas. Apesar disso, o mercado fornece alguns artifícios equivalentes. Ao invés de manter correspondentes em outras localidades, compra-se matérias produzidas para todo o país por um número bem restrito de agências de notícias. Enquanto a variedade de perspectivas e opiniões exige que jornalistas vão atrás de fontes, há as “fontes fáceis” que procuram as redações, como releases, notas e outros materiais produzidos pelas assessorias de imprensa de empresas e instituições. Já a investigação… Bem… Talvez o material à disposição já possa dar conta do recado… Não acha?

Dessa maneira, a supremacia desta lógica comercial vai agravando um quadro que já carece muito de diversificação nas abordagens e pontos de vistas, coisas que – ironicamente – a invenção e proliferação da imprensa possibilitou, no passado, serem veiculadas amplamente nas sociedades e fundamentou a “liberdade de imprensa” como bandeira assumida por muitas lutas por democracia. Não é exagero. A existência de um termo próprio para jornalistas definirem essas demissões é significativo. Afinal, os passaralhos são mais comuns do que se imagina e têm se intensificado nos últimos anos. São mudanças estruturais que a lógica de mercado impõe. Porém, será que elas atendem aos interesses mais amplos da população?

O passaralho no Diario de Pernambuco do dia 25 de março é apenas o mais recente da mídia pernambucana. Há informações que nos últimos três anos, a redação do DP foi reduzida quase pela metade. Em fevereiro de 2014, seu principal concorrente, o Jornal do Commercio, demitiu 28 profissionais da redação. Num mercado reconhecidamente concentrado na mão de poucas empresas, cada passaralho é, por si, mais um encolhimento das já restritas vagas de emprego na área e vai tornando norma a degradação das condições de trabalho para os profissionais: salários cada vez mais baixos, sobrecarga de atividades, acúmulo de funções, concentração da produção de cadernos em menos e menores núcleos, equipes que têm de produzir tanto para a Internet (“tempo real” e sites) quanto para edições impressas, a falta de liberdade para se manifestar a respeito sem que disso resulte um telefonema indesejado vindo do RH, além da completa ausência de expectativa de que tais coisas possam virar notícia… Mesmo para quem é demitido fica difícil se expôr sobre o assunto, pois ainda resta certa esperança de colaborações futuras como freelancer para as mesmas empresas – oportunidades valiosas para quem anda desempregado. Aos consumidores, sobram cadernos temáticos que vão desaparecendo ou se agrupando, diminuição de páginas, multiplicação dos (já numerosos) anúncios publicitários, além da citada queda na qualidade, que se demonstra reflexo menos da competência dos profissionais do que a falta de comprometimento das empresas com a informação ofertada.

Se conseguimos te convencer que um passaralho deveria incomodar muito mais gente do que quem perde o emprego com ele, resta lembrar que indignação não faz nada por si só. Escreva aos jornais expressando sua opinião. Compartilhe informação com outras pessoas que não terão a oportunidade de saber sobre isso na mídia. E procure saber mais sobre outras questões para que possamos exigir mudanças na mídia que interessam a todxs. Jornalismo independente, democratização da comunicação e o fortalecimento e ampliação da comunicação pública são alguns temas que podem merecer sua atenção. Fica a dica.

Leitura recomendada: A revoada dos passaralhos.

* cientista social e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire.