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Sobre o Novo Recife e o modo de “fazer de otário” toda uma cidade

por Renato Feitosa*

Temos todos conhecimento dos argumentos que têm sido difundidos para deslegitimar o movimento contra o Novo Recife. Desde 2012, expomos os fundamentos que nos guiam nessa luta para todos, porém, o alcance deles é restrito e depende totalmente da vontade daqueles que os leem em compartilhá-los. Tudo seria mais fácil se tivéssemos em Pernambuco uma mídia democrática e plural, mas esse não é o caso. Dos jornais impressos (que são propriedades particulares por natureza) até as emissoras de rádio e TV (que só atingem a audiência por terem a permissão de utilizar um bem público, administrado pelo Estado, que são os canais de radiofrequência), todos, estão nas mãos de empresas privadas, seus donos e acionistas.

Queremos pedir um momento de reflexão da parte de todos (apoiadores e contrários) para essa situação. Não há um único participante do movimento que tenha condição de bancar um anúncio de rodapé na imprensa e muito menos na TV. Por outro lado, todos estão acostumados a ver as marcas da Moura Dubeux e Queiroz Galvão em todos os veículos de comunicação, anunciando constantemente seus empreendimentos.

E eis um fato incontestável, cidadãos, nossos iguais:

As empresas do Consórcio Novo Recife são clientes usuais das empresas dos jornais, das rádios e das TVs. Se os negócios vão bem para as primeiras, melhoram para as últimas. Isso para não dizer que, por exemplo, o proprietário do Jornal do Commercio, João Carlos Paes Mendonça, é ele mesmo um “empreendedor” imobiliário, fazendo muito mais fortuna com isso do que com o próprio jornal, tendo, nas apresentações do seu RioMar a investidores, vendido em conjunto o Novo Recife como local de residência de “um segmento com alto poder aquisitivo”, isso ainda na época em que o projeto sequer havia sido aprovado pela Prefeitura do Recife.

Portanto, é incontestável que a mídia que faz a cobertura das questões envolvendo o Novo Recife é a mesma mídia que ganha com a continuidade do projeto e não tem nenhum benefício com o cumprimento das leis; em publicar informações sobre o pedido feito pelo Ministério Público Federal para anulação do leilão da área do Cais José Estelita pela Caixa Econômica Federal; em citar os depoimentos de técnicos do IPHAN e RFFSA que atestam irregularidades nos autos desse processo; em confirmar que não houve qualquer espaço de discussão com a sociedade como está registrado nos processos administrativos da Prefeitura do Recife; em dizer que a destinação de áreas como o Cais em outros lugares do “primeiro mundo” nunca seria feita a um projeto do tipo, que anunciam como ícone “do futuro e do crescimento econômico”; em revelar números de quantos investimentos e empregos também seriam gerados pela construção de qualquer outro projeto que respeitasse as necessidades da cidade e sua memória; em mencionar a participação de integrantes da Ocupação do Estelita em reuniões oficiais, que somente foram realizadas por exigência deles, ou sequer citar suas falas em matérias que abordem o assunto; ou seja – apenas para não tornar esta lista maior com numerosas outros pontos tão pertinentes quanto os citados – NENHUMA QUESTÃO QUE NÃO LEGITIME O NOVO RECIFE é apresentada pela mídia.

Esses veículos de comunicação, que deveriam nos informar corretamente para o desempenho da cidadania e contribuir para a formação da visão da população sobre sua própria realidade, acabam, afinal, tratando seu público com total desrespeito ao ocultar fatos e distorcer a verdade.

De forma bem grosseira: eles querem, realmente, nos fazer de otários, para aceitarmos e apoiarmos uma iniciativa que prejudicará a maioria da população da cidade, privando-a de direitos, enquanto ganham rios de dinheiro – e o Capibaribe – com toda estaca que é batida no solo desregulado do nosso Recife.

Você pode criticar o #OcupeEstelita, sim! Mas se é para ser crítico, que seja por completo.

Abra os olhos e ouça esta música.

 

 

* Renato Feitosa é sociólogo, membro do Centro de Cultura Luiz Freire e milita pelo Outro Recife que o #OcupeEstelita propõe.