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Sobre a imprensa e a revolução árabe

Por Rafael Marroquim*

“Três jornais hostis devem ser mais temidos que mil baionetas”. A frase, atribuída a Napoleão Bonaparte, sintetiza a maneira pela qual a “guerra pela informação” se impôs como um elemento central na contemporaneidade, ganhando novos contornos com as revoluções democráticas no mundo árabe. Nesse sentido, a cobertura dos protestos civis no Egito, Líbia e Iêmen ? países esquecidos pelas grandes agências internacionais de notícias — provou a força não só das redes sociais, mas principalmente da TV Al-Jazeera (http://english.aljazeera.net/), emissora responsável pela veiculação de informações com olhar dissonante em relação às suas congêneres ocidentais.
 
Durante a crise no Egito, a versão internacional da televisão árabe se equiparou a Fox News no número de telespectadores nos Estados Unidos. Na Líbia, a TV é uma das poucas a ter repórteres em Benghazi, cidade ocupada pelos rebeldes. No início de março, a própria Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, reconheceu que os norte-americanos estão perdendo a “guerra por informação”.
 
“Estamos em uma imensa competição por influência global e mercados globais. China e Rússia lançaram redes de televisão funcionando em várias línguas, quando os EUA fazem cortes nesta área. Estamos pagando um preço elevado por desmantelar redes de comunicação internacional depois do fim da Guerra Fria. Nossos meios privados não podem preencher essa brecha”, disse a senhora Clinton.
 
Diferente do Twitter e do Facebook, que exigem acesso à internet, a Al-Jazeera é assistida por milhares de árabes. Em países como o Egito (http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI1527011-EI294,00.html), com quase 30% de analfabetos e 57% da população vivendo na zona rural em 2007, o veículo obteve papel central, ao noticiar os protestos na praça Tahrir, no Cairo. O então ditador Hosni Mubarak chegou a proibir a cobertura da TV no auge das manifestações, temendo maior apoio aos opositores do regime.
 
Com as versões apressadas da mídia e de acadêmicos de bureau ocidentais, os países árabes, sobretudo do Norte da África, estariam relegados a duas matrizes: uma política, o chamado “despotismo oriental”, e outra religiosa, o “fundamentalismo islâmico”. Os protestos civis pela democracia, ao contrário, revelaram a presença de uma classe média não-fundamentalista, pouco pitoresca aos olhos ocidentais, e articulada em torno de movimentos sociais.

A revolução tida como impossível pelo ocidente hegemônico, que negava a presença de uma sociedade civil ou mesmo de uma opinião pública árabe, parece ter caído por terra, como explicou o historiador Francisco Carlos Teixeira (http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/03/19/a-revolucao-impossivel-369683.asp). Por isso, a necessidade de reduzir o “espaço público político”, com raízes históricas definidas de décadas de resistência aos regimes, às teses pré-fabricadas por uma relevância indiscriminada das redes sociais.

Outras formas de sociabilidade, como as escolas, praças e mesquitas se perderam no murmúrio de agências de notícias e de articulistas internacionais à longa distância reprodutores de estereótipos de qualquer cruzada cristã. Pode não demorar até que essa inversão de fumaça em fogo se torne, de fato, roteiro de consagração imediata indicada ao Oscar, dedicado a todos que lutaram na “Facebook Revolution”. À Al-Jazeera caberá, talvez, a resignação pós-colonial de melhor veículo estrangeiro. Ao menos o voto dos EUA e da senhora Clinton já foram dados.

*Jornalista e integrante do Núcleo de Estudos e Ações sobre Democracia e Direitos Humanos (NEADDH), da Universidade Federal de Pernambuco.