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Sistema JC transmite conteúdo idêntico em duas frequências. E só quem perde é você

radiojornalPor: Roger de Renor*

Na Rádio Jornal, a radialista Graça Araújo lê uma notícia sobre o constrangimento em rede nacional e ao vivo no primeiro dia do BBB, quando um participante negro fala que vai pegar algo mais rápido do que os outros  “porque todo negro é ladrão …”

Dividindo a transmissão, Geraldo Freire ouve a notícia ri, possivelmente achando natural o comentário e completa, descompletando a falta de constrangimento de sua companheira de emissora, que neste momento parece não reconhecer-se negra, e diz:

“Oi ?! Não disseram a ele que todo mundo rouba hoje em dia?!!!”

Infelizmente segue um rápido silêncio que antecede o intervalo onde anunciam com fartura os nomes de quem diariamente patrocina esse atraso e desrespeito à nossa comunicação e direitos. O Sistema Jornal do Commercio consegue fazer cada dia mais de menos e tem dado uma verdadeira aula de manipulação da informação e monopólio da mídia quando transformou  a falência de sua FM em um grande e positivo acontecimento para o estado de Pernambuco e para a comunicação: desde o final de 2014, a emissora ocupa duas faixas no dial pernambucano (780AM e 90,3FM). O Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC) ainda conta com outros cinco canais espalhados por municípios do interior pernambucano.

Não precisa ter estudado. Aliás, não precisa nem saber ler, basta perguntar para alguém que ouve rádio se prefere ter a opção de ouvir uma ou duas rádios? Duas ou quatro? Quatro ou dez? Quem gosta quer muito e vários, de opiniões diferentes, estilos musicais distintos e diversas maneiras de se noticiar as coisas pra ir escolhendo e  formando sua opinião .

“Mais informação para formar a sua opinião”. Ironicamente,  é esse o slogan da rádio. Talvez agora ou já há algum tempo justifiquem o lema pela quantidade, jamais pela diversidade de notícias. Opinião só se forma ouvindo diversidade de informações, debates e opiniões. Agora, o Sistema JC se vangloria em ser a primeira emissora que transmite simultaneamente em AM e FM em todo o Nordeste. Mas, na verdade, esta ‘jaboticaba’ só existe porque o sistema conseguiu falir uma de suas emissoras! E fundiu as empresas, subutilizando um veículo, demitindo um monte de gente e usando duas concessões públicas com o mesmo conteúdo. Assim, aproveita para fechar mais ainda seu cerco de especialidade na manipulação da informação.

Gostaria muito de ouvir alguma opinião de quem se dedica a estudar as mídias sobre esse recente fenômeno exemplar na ‘democrática comunicação de faz-de-conta de Pernambuco’, onde até o prefeito da capital se presta em sua ignorância também forjada a visitar a empresa e fazer seu papel no teatro da manipulação, parabenizando a empresa amiga de seus patrocinadores de campanha pelo avanço que representa para o estado ter uma única rádio ocupando duas faixas do escasso espectro eletromagnético transmitindo o mesmíssimo conteúdo.

Ao invés disso, deveria o gestor público lamentar a falta de competência na gestão e de investimentos em novos profissionais que fez com que a JC News, que ocupava a frequencia em FM, falisse tão rapidamente para que essa estratégia tapa-buraco econômico fosse colocada em ação.

Pernambuco não ganha nada em tendo duas rádios com programação idêntica. Só perde. Os jornalistas e radialistas só perdem também . O mercado, as agências, a sociedade, a música, a diversidade, a informação… Tudo! Não existe vantagem pra ninguém nessa notícia. Só para a empresa, como sempre. Agora, além de forjar sua própria informação, o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação também economiza embalagem na hora da entrega.

*Roger de Renor é produtor cultural e organizador do Som na Rural.