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“Por que a mídia não fala nas desapropriações da Copa em Pernambuco?”, entrevista com Eduardo Amorim do Mídia Capoeira

Ruínas de moradias do Loteamento São Francisco,, em Camaragibe. Foto: João Velozo

Ruínas das moradias do Loteamento São Francisco,, em Camaragibe. Foto: João Velozo

Em pouco mais de dois meses, qualquer referência da mídia brasileira à Copa do Mundo será feita no passado. A imagem do capitão da seleção campeã levantando o troféu dourado será exaustivamente repetida na televisão, acompanhada das mais variadas vozes, por meio das quais a maior parte da população terá acesso a narrativas que enaltecerão a conquista do título, o desempenho de certos jogadores, possíveis polêmicas… Tudo com o apelo característico de textos produzidos para serem tocantes, na tentativa de estimular sensações nos espectadores: satisfação ou decepção, repulsa ou admiração. Mas isso está ainda por acontecer. Como estavam por acontecer, nas notícias de pouco menos de sete anos atrás, os projetos que adequariam as cidades-sedes às exigências do evento da Fifa e que deixariam uma série de benefícios como herança para os seus cidadãos. Especialmente, no que se dizia a respeito da mobilidade urbana.

Hoje, o que a imprensa informa sobre o “legado da Copa” é aquilo que os habitantes das metrópoles já testemunham na sua rotina: as soluções de transporte de outrora se tornaram simples paliativos para garantir o acesso dos torcedores aos novos estádios, tendo suas obras levadas a toque de caixa e na base da gambiarra. A eficácia questionável dos resultados em relação à dos projetos iniciais; o montante do erário destinado a construções que nem de longe serão concluídas nos prazos estimados; e a falta de transparência nos gastos públicos são apenas o lado menos perverso e mais visível do que se esconde sob o concreto das estruturas e por trás dos tapumes dos canteiros de obras. Os espaços em que se firmaram tais cenários também abrigaram durante décadas comunidades inteiras, cujo processo de remoção se caracterizou por graves violações de direitos e sofrimento humano desnecessário. Infelizmente, os talentos dos jornalistas, que serão empregados pelos meios de comunicação brasileiros na transformação das partidas do Mundial em emocionantes epopeias, não são sequer destinados a transmitir as estatísticas das desapropriações da Copa, a forma mais fria e distante possível com a qual se poderia traduzir o drama das milhares de famílias vitimadas.

Tal contexto é menos representativo de uma hipotética falta de interesse dos profissionais da comunicação do que da extrema concentração da propriedade da quase totalidade dos veículos nas mãos de uns poucos sujeitos da iniciativa privada. A atuação da imprensa escrita e das emissoras que ocupam concessões públicas de rádio e TV não se guiam apenas pela lógica comercial, na qual promover o espetáculo da Copa é garantir os bons lucros com a publicidade veiculada na cobertura do evento. No ano em que também teremos eleições federais e estaduais, a preservação da imagem de gestões ligadas a políticos – aos quais se alia o empresariado do setor – colabora, e muito, para manter a invisibilidade dos atingidos pelas obras da Copa.

E Pernambuco é antes um tipo ideal da regra do que qualquer espécie de exceção. Temos uma mídia local que, há muito, já perdeu qualquer pudor em disfarçar o seu comprometimento com certas candidaturas e a inviolabilidade da imagem de um presidenciável que comandou o estado por todo o período de preparação para a Copa. Fatos escabrosos, como a falta de transparência do governo em relação ao custo total da Arena Pernambuco – concluída há mais de um ano! -, ganham um reles ou nenhum destaque. Assim, as ações do Estado contra a população são abrandadas, a hegemonia política se mantém e os gastos com publicidade institucionais são aumentados vertiginosamente. Já a opositores, sobram os ataques estratégicos, que vão do escracho aberto – feitos por colunistas de opinião e apresentadores de programas radialísticos – à total desconsideração nas pautas ou, no caso dos movimentos sociais, a clássica criminalização.

À maioria dos jornalistas a atribuição de responsabilidade na participação de tal processo é, no mínimo, relativa, visto que pautas que envolvem questões de interesses políticos e de potencial repercussão passam por uma cadeia de comando fortemente verticalizada, que integra chefias, donos ou controladores dos veículos e mesmo ocupantes dos gabinetes dos poderes públicos. Assim, a melhor alternativa para aqueles que se deparam com a realidade que deveria ser noticiada e conhece as “mãos invisíveis” que atuam dentro das redações – e cujos dedos ainda executam muitos toques por minuto após os expedientes dos repórteres – é desenvolver de forma independente o seu próprio veículo de comunicação. E a Internet é o meio mais propício para isso.

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Arte: Nathalia Queiroz

Recentemente, tomamos conhecimento de uma iniciativa do tipo, cuja necessidade urgia desde o início do processo de “preparação” da Região Metropolitana do Recife para sediar quatro jogos da Copa do Mundo. Um blog de nome curioso, o Mídia Capoeira, tem se dedicado exclusivamente a divulgar informações sobre mobilizações e experiências dos atingidos pelas obras do Mundial em território pernambucano. Fatos que o governo omite e a mídia local afasta de suas pautas, mesmo em acontecimentos gritantes como foi o caso dos moradores do Loteamento São Francisco, que foram removidos para a expansão do Terminal Integrado de Camaragibe sob intensa coação e ameaça de despejo com ação policial, conduta que se revelou, por fim, uma verdadeira estratégia estatal para que aceitassem indenizações pelas suas residências muito abaixo do valor de mercado. Após sua saída, muitas famílias passaram a viver em condições de moradia precárias, sem qualquer amparo assistencial ou mesmo o pagamento pelo Estado das indenizações assumidas. Tal processo já resultou na morte de sete pessoas, que sequer foram mencionadas nos meios de comunicação locais.

O autor do Mídia Capoeira é o jornalista Eduardo Amorim, correspondente do portal Terra Esportes em Pernambuco e membro do grupo Direitos Urbanos. Sua atuação como repórter esportivo o colocou em contato com a realidade das pessoas que tiveram sua vida prejudicadas pelas atuações estatais para viabilizar a Copa localmente. A situação de abandono e violação de direitos de tais sujeitos com a qual se deparou acabaram por sensibilizá-lo, levando-o a acompanhá-la continuamente por iniciativa própria. Desde então, conseguiu a publicação de algumas matérias sobre os casos no site esportivo. Porém, segundo Eduardo, a grande quantidade de questões envolvendo as remoções exigia a produção de mais material do que o espaço que conseguia como correspondente esportivo era capaz de atender, razão pela qual criou o Mídia Capoeira. Procurado pelo OmbudsPE, ele aceitou responder a algumas perguntas sobre sua iniciativa com o blog e a cobertura da mídia pernambucaba sobre os impactos da Copa do Mundo sofridos pela população local. “Acho até muito oportuna a proposta”, confessou o jornalista. “Fui contatado hoje pela Folha de Pernambuco e vai ser bom ter algo registrado em algum outro meio que possa servir de contraponto ao que vierem a falar.” A preocupação de Eduardo tem embasamento real e provavelmente reflete seu conhecimento da linha editorial escusa do jornal em questão, que não se preocupa em deixar os procedimentos profissionais de lado quando se trata em explorar, com um viés deturpado, falas ou informações na abordagem de assuntos que contrariam interesses do poder local [Link 1] [Link 2].

ENTREVISTA com Eduardo Amorim, editor do Mídia Capoeira:

OmbudsPE: A iniciativa do Mídia Capoeira surgiu como e teve participação de quem?

Eduardo Amorim: Venho acompanhando a situação dos desapropriados pela Copa do Mundo desde antes da Copa das Confederações, pois sou correspondente do Terra Esportes e recebi uma pauta que era falar sobre o bairro onde foi construída a Arena Pernambuco. Quando fui até São Lourenço, me deparei com uma situação incrível pois vários restaurantes de comida regional instalados na BR-408 são de removidos da época das desapropriações para construção do estádio e da Cidade da Copa. Fiquei desde então com aquela pergunta “Por que não se fala nas desapropriações do Mundial em Pernambuco?” Só que muitas das situações acabam não entrando no portal Terra, pois sou correspondente na área de Esportes. Além disso, pessoalmente, me sentia um pouco solitário de entrar num tipo de pauta que desagrada frontalmente ao Governo do Estado. Então, muitas vezes tive que evitar expor temas como o valor da construção da Arena Pernambuco. E não faria sentido publicar vídeos como o Despejo #5 – que trata do sofrimento dos desapropriados em Camaragibe – numa página esportiva. Até agora, tenho feito um trabalho basicamente solitário. Mas depois que lancei o blog – com uma linda ilustração presenteada por Nathalia Queiroz – algumas pessoas já se ofereceram para escrever. Recebi um artigo e fico feliz de ter recebido certo respaldo do Fopecom (Fórum Pernambucano de Comunicação) e do Centro Luiz Freire. Também espero, em breve contatar o Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco.

OmbudsPE:Mídia Capoeira”, por que esse nome? É alguma alusão ao Mídia Ninja?

Eduardo: Inicialmente, propus ao Terra um blog que teria o nome Ponto Futuro e seria voltado a cobrir o legado dos megaeventos no Brasil. Mas eles não aceitaram o projeto. Inclusive, isso me deixou bastante decepcionado, mas acabei renovando o contrato que tenho há mais de três anos com o portal espanhol em janeiro. Queria ampliar minha ação sem perder o contrato que me sustenta, para isso inclusive cheguei a contratar Luis Charamba no fim do ano, que me ajudou na divulgação de um evento para o qual o Comitê Popular da Copa me contratou e também em outros projetos que peguei na época como freelancer. Então, demorei um tempo maturando essa ideia. Acho que Mídia Capoeira é principalmente uma referência ao esporte que pratico, mas tem também a coisa do capoeirista usar o berimbau como arma na hora que a polícia chega batendo forte… E o próprio autor do #MídiaNinja chega a falar disso, que na hora do perigo a arma do midiaativista é a câmera e o celular. Infelizmente, sou um profissional mais de texto, mas estamos recebendo apoio de algumas pessoas que entendem de tecnologia e espero superar em breve essa dificuldade.

OmbudsPE: Houve algum fato ou situação específica que poderia ser considerada como a que desencadeou a criação ou fez surgir a ideia do blog?

Eduardo: Recentemente, durante o I Encontro de Atingidos – Quem perde com os megaeventos e megaempreendimentos? em Belo Horizonte, tive oportunidade de conversar com o criador do #MídiaNinja. Ele me falou que achava mais perigoso eu estar registrando os temas sem divulgar, já que me tornaria um alvo fácil e que ele tinha conquistado segurança justamente por ter se tornado uma figura pública. Diferente da maioria dos midiativistas, no entanto, quero fazer um jornalismo que ouça os dois lados, mas ainda tenho dificuldade porque o Governo de Pernambuco não tem passado informações precisas sobre as remoções.

OmbudsPE: Como se dará a participação dos cidadãos afetados pelas obras na produção do conteúdo?

Eduardo: Tem um cinegrafista que já passou algumas imagens para vídeos produzidos com meu apoio. Também espero me aproximar mais desse pessoal. Mas a verdade é que eles estão muito assustados. Acuados mesmo! Espero ter apoio também de um fotógrafo de Camaragibe e um jornalista de São Lourenço da Mata (cidade em que se localiza a Arena Pernambuco).

OmbudsPE: Como você avalia a cobertura da mídia local sobre as remoções e seus efeitos sobre os moradores afetados? Há exceções que mereçam alguma consideração?

Eduardo: A cobertura é basicamente nula. Recentemente, o sistema Jornal do Commercio começou a fazer algumas reportagens sobre o tema, mas ainda muito superficiais. O Comitê Popular da Copa ficou muito preocupado principalmente com uma reportagem que saiu na capa da Folha de Pernambuco em que era traçado um perfil muito negativo de uma liderança do Sintraci (Sindicato dos Trabalhadores do Comércio Informal do Recife). Aparentemente, existe uma orquestração para fazer com que os impactos da Copa do Mundo fiquem fora da pauta da mídia e que os manifestantes pareçam muito mais radicais do que realmente são. Até agora, as manifestações que tenho acompanhado são feitas por idosos do Loteamento São Francisco, que compraram os terrenos onde tinham suas casas na década de 60 e têm o maior medo ainda da Ditadura.

OmbudsPE: Já chegou a ter algum feedback de colegas sobre o tratamento do assunto dentro das redações?

Eduardo: Tenho sim um feedback. Faço uma pressão positiva hoje em dia para que saia alguma coisa no Jornal do Commercio. Inclusive pedi a alguns colegas para fazerem alguma matéria sobre os desabrigados do Loteamento São Francisco. Em relação a maioria dos outros veículos não vejo muitas possibilidades, pois parecem estar assumindo a candidatura à presidente de Eduardo Campos e sabem que esse tema é crucial para o projeto nacional do PSB. O blog Mídia Capoeira é na verdade uma tentativa de sensibilizar a mídia estrangeira. Já tivemos uma matéria que foi ao ar na France Télévisions (emissora pública de televisão francesa), outra deve ser divulgada pela BBC (emissora pública-estatal de rádio e TV do Reino Unido). Eu escrevi um texto longo, relatando a situação para a Fundação Enrich Bölls (ONG alemã atuante na área de ecologia e Direitos Humanos) que será publicado em inglês, português e francês. Então, a minha esperança é de que a pauta saia do silêncio a partir da pressão internacional e que isso traga algum benefício para os mais de 2.000 removidos pela Copa do Mundo em Pernambuco.

OmbudsPE: A experiência com a mídia local se estende às de outros estados ou de fora do país?

Eduardo: Em Belo Horizonte, o Copac (Comitê dos Atingidos pela Copa) foi para o enfrentamento contra as gestões do Município, Estado e Federal. E mesmo com pouco espaço na imprensa, conseguiu fazer as causas conhecidas. Mas isso é muito por conta dos midiativistas e da postura corajosa dos integrantes do grupo. Depois do Encontro dos Atingidos, tive oportunidade de conversar com eles e disse que tinha ficado muito feliz de saber que a cidade deles sabe dos problemas relacionados às remoções do Mundial. Mas eles me responderam garantindo que a imprensa mineira não abre espaço para o tema, tanto quanto a daqui. Afinal, são muitos interesses financeiros dos anunciantes, da Fifa e políticos… A diferença em relação ao que aconteceu aqui é que os movimentos sociais demoraram a perceber o tamanho do problema… Mas também há nisso um problema interno, pois o Comitê Popular da Copa foi muito burocrático e insistiu demais nas negociações com o Governo do Estado. Eu também não quis me jogar, pois prefiri não me envolver profissionalmente, já que minha empresa chegou a ser contratada para divulgar um evento do coletivo no ano passado e notei que não me adaptava à função de assessor de imprensa de um movimento social tão complicado. Mas o Mídia Capoeira é a forma como encontrei de ajudar e torço que se torne, depois da Copa, um veículo permanente na internet.

OmbudsPE: Vocês realizaram algum pedido de informação ao governo estadual sobre as remoções? A qual(is) órgão(s) foi/foram direcionado(s)? Em que resultou?

Eduardo: O Comitê Popular da Copa e o Observatório das Metrópoles realizaram alguns pedidos de informações. Mas nem mesmo o número total de famílias removidas o Governo do Estado informou até agora. Recentemente, em conversa com Ana Ramalho, do Observatório, ela me confirmou que imagina que sejam 3.000 em Pernambuco. Mas, oficialmente, eles mesmos usam apenas o dado de mais de 2.000 remoções. O negócio é que esse é apenas o número de processos, mas alguns desses processos se referem a seis, oito residências e isso não está contabilizado corretamente pelo próprio governo. Porém, isso já é uma história para você ler no www.midiacapoeira.wordpress.com.

* Texto, entrevista e notas nas falas do entrevistado por Renato Feitosa, sociólogo e membro do Centro de Cultura Luiz Freire. [renato at cclf.org.br]