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Pânico et circences: o interesse dos jornais pela morte e vida nas cidades.

Por Rudrigo Rafael*


Recife/ É o sol saindo/ E o bandeira 2 anunciando seus mortos/
Foi 1 tiro lá na Linha do Tiro/ 3 facadas lá na Bomba do Hemetério/
Eu passando manteiga no pão/ E pensando, quem será o próximo?/
Mataram a pedradas lá paras bandas do Coque/ Encontrado enforcado nas matas de Apipucos/
Estupraram mais uma mulher em Casa Amarela/ Sangra a periferia bem de manhazinha/
O café esfria de tanta dor/ E o pior, é que não adianta chorar o leite derramado (Miró, Linha de Risco).

Muito tem se aventado acerca do poder dos meios de comunicação nos últimos anos. Algumas correntes sustentam que sua influência está em franco declínio e a as eleições do presidente Lula e a ascensão de Dilma ao poder seriam exemplos do arrefecimento ideológico dos grandes conglomerados comunicacionais na vida social brasileira. Representantes de dois seguimentos excluídos na história, os trabalhadores e as mulheres passaram a desconstruir estereótipos. Outros sustentam que com o aprofundamento do individualismo possessivo e da sociedade de consumo, as relações são cada vez mais mediatizadas pela linguagem da publicidade. Uma coisa é fato, não se pode subestimar a capacidade da indústria cultural de produzir significados, de formar juízos, nem se pode negar o sistemático ataque, através da produção de sucessivos espetáculos, que os setores historicamente segregados e/ou pouco organizados sofrem diariamente nas paginas dos jornais ou nas imagens dos noticiários televisivos.

A tudo isso me remeteu a matéria de capa do Aqui PE da segunda-feira 21 deste mês e que teve sua versão publicada no Diário de Pernambuco com leves ajustes. Preenchendo a lacuna de formas de informação popular na sociedade contemporânea, os jornais pretendem se firmar enquanto representação da opinião pública e reconstitui a realidade a partir de imagens, fragmentos e alusões que criam simbolicamente um material incrível, fantástico, irracional. E no caso cabia a estes elucidar o porquê, como estampava a capa do Aqui PE, em letras garrafais, “Idoso mata neto com tiros e facada”. O motivo do crime, segundo o jornal, teria sido uma discussão entre a vítima e seu executor em virtude de uma visita que Renato teria recebido e suscitado o desagrado de seu avô. Apesar de citada, a questão da coabitação de várias famílias no mesmo terreno não fora problematizada, a não ser no sentido de afirmar que “o terreno abriga famílias de baixa renda em uma rua de classe média da Torre” e que “os vizinhos mais próximos estão assustados ”. Neste sentido, a abordagem procura salientar com sutileza o “locus” da violência. No entanto, não basta dar-lhe espaço, é preciso dar-lhe corpo também. Fora destacado ainda que “de acordo com o delegado, não há relatos de envolvimento de Renato com drogas, mas ele era uma pessoa agressiva com a família”. Se fosse ele usuário de drogas, quem sabe não entraria para estatística das mortes ligadas ao tráfico? E aí poderia o jornal capturar um daqueles depoimentos “foi um alívio para nós, agora teremos paz”, que buscam a legitimidade popular a aclamação da pena capital. Mas Renato, foi dito, “era uma pessoa agressiva”. Assim, a violência ganha seus corpos, com classe social, embasando uma biopolítica que aprofunda o medo social e atribui à pobreza um status de periculosidade.

Não entrou nas páginas dos jornais a tentativa de homicídio que Renato sofrera na terça-feira de Carnaval (08 de março), 10 dias antes de seu assassinato. Nem foi alvo de atenção seu pedido de proteção, quando naquela madrugada ligamos para a polícia, tentamos contato com três viaturas que passaram pelo local e conversamos com um policial que afirmou que a única coisa era fazer era “ligar para a polícia”. O que já havia sido feito, com o registro do clamor de Renato com o número M3813264, até hoje salvo no meu celular. Diante do descaso, restou a ele ferido voltar para casa, falando que “se ele estivesse fazendo algo errado, a polícia teria o visto”. Voltou sangrando, pois lá estava sua filha de meses. O óbito civil vivenciado por Renato, caracterizado por um contínuo processo de negação de direito a uma moradia adequada, à educação, ao trabalho, só foi interrompido. O direito ao lazer, Renato só tinha dentro dos condomínios, quando participava das peladas de fim de semana fazendo parte do estigmatizado por muito “time da rua”, pois, emparedados vivos pelos edifícios, as populações pauperizadas do território perderam progressivamente seus espaços de uso coletivo pela expansão do mercado imobiliário no bairro. Não foram, como aponta as matérias, os vizinhos que perderam a segurança. Neste jogo de perdas e ganhos, quem sempre esteve atrás no marcador foram outras/os. Independente de quem impunhara a faca ou de quem puxara o gatilho, Renato sofreu em vida de uma morte lenta e dolorosa, de um óbito civil, como tantas outras mulheres, negros, pobres e homossexuais, negligenciadas/os pelas instituições e identificados historicamente pelo conjunto da sociedade enquanto sujeitos de dignidade secundária.

O que quer a imprensa? A matéria dá a pista. Um personagem não identificado pela reportagem nos fornece uma idéia quando disse que “iria buscar o que a imprensa queria. Temendo tratar-se de uma ameaça, a reportagem deixou o local e retornou no fim da manhã”.

*Rudrigo Rafael é assistente social, membro da Organização Não Governamental Habitat para a Humanidade Brasil e integrante do Núcleo de Estudos e Ações sobre Democracia e Direitos Humanos (NEADDH) da UFPE.